Selma

Uma personagem conhecida, uma obra célebre. A combinação perfeita para um filme acomodado, que elege a trajetória de vida e seus highlights em detrimento de entender quem é a pessoa por trás da figura histórica. Encontrar a sensibilidade certa para dirigir um biografia é um dos maiores desafios para qualquer cineasta. Porque a própria indústria do cinema criou um modelo muito fechado para este gênero, que serve para trabalhar catarses, induzir às lágrimas, manipular os sentimentos do espectador para que ele se identifique com o tom edificante e inspirador deste tipo de filme.

Ava DuVernay transforma as regras deste jogo em Selma. A diretora encontra uma maneira delicadíssima de evitar a burocracia que geralmente ronda os filmes que recriam histórias reais, mirando no humanismo. A cada cena, desvenda o homem, revela suas fragilidades, aponta seus defeitos, dúvidas e carências. E faz isso de maneira inusitada, como na cena em que a esposa questiona o marido sobre sua fidelidade ou no telefonema para uma cantora gospel no meio da noite. A noite, por sinal, parece mostrar o outro lado do protagonista, quando ele deixa de ser personagem.

O filme não é sobre uma luta étnica ou religiosa (ou também é). Nem procura revelar o Messias escondido em Martin Luther King (ou também revela). Selma é, sim, um filme edificante e inspirador porque a cineasta consegue traduzir e reverberar a jornada do protagonista pelo que ele acredita. O espectador é conquistado pela identificação. DuVernay cria uma obra sobre a humanidade em cada um de nós. Dignifica o trabalho Martin Luther King sem necessariamente vendê-lo como herói, mas entende sua batalha como ser humano. E David Oyelowo merece os maiores créditos. Recria um homem imenso da maneira mais discreta, simples e bonita possível.

Selma EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Selma, Ava DuVernay, 2014]

Comentários

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4 comentários sobre “Selma”

  1. Comecei a ver sem grandes expectativas, imaginando que seria o típico filme-biográfico-feito-para-oscar, mas a atuação do protagonista e o cuidado da diretora com a transposição da história e dos personagens subverteram qualquer má impressão que eu pudesse ter. Toda a primeira sequência na ponte é de arrepiar. Um dos melhores entre os indicados ao prêmio.

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