Festival do Rio 2013: Tatuagem e mais três filmes gays

A sexualidade cada vez mais encontra maneiras sofisticadas e diferentes de ser retratada no cinema. Na edição 2013 do Festival do Rio, grandes filmes como Um Estranho no Lago, já resenhado em outro post, e Tatuagem abordam questões gays de forma transgressora. O filme de Hilton Lacerda, que ganhou o Festival de Gramado, está entre os melhores longas nacionais dos últimos 20 anos. O Filmes do Chico lista aqui uma série de filmes que dão perspectivas diferentes para aspectos da homossexualidade.

Tatuagem

Onde Hilton Lacerda estava escondido nos últimos dez anos? Bastou o roteirista sair da sombra de Cláudio Assis, de quem escreveu todos os longas, para se revelar um provocador romântico com uma extrema consciência do mundo em que vive, mas com uma leveza para dar fluxo a suas ideias e uma sofisticação sem par para materializar as cenas que imagina. Tatuagem, sua primeira ficção, é um assombro. Seja pelo extremo cuidado com as imagens, a trilha e som; seja por causa do requinte do texto, atento ao Brasil de 1978, mas sem ranço sindicalista.

A sutileza, esse talento incomum que o diretor revela para movimentar sua história, deveria esbarrar na militância de Assis, para quem a provocação nunca foi suficiente. Era preciso ir para a guerra. Sem ter que dividir responsabilidades e méritos com o amigo, Lacerda fez um manifesto político apaixonado que, sem grandes eventos morais, acha numa pequena história sobre encontros e desencontros, o espaço ideal para dar voz ao autor. Ele veste as fantasias dos atores do grupo de teatro cuja trajetória acompanha para acomodar seu discurso libertário.

Várias vezes ao longo do filme, na boca de seu protagonista Clécio – Irandhir Santos, talvez o melhor ator brasileiro desta década -, o cineasta explica sua revolução. As apresentações e os números musicais que concebe em riqueza de detalhes para o filme são transgressão pura e simples. O mais radical deles é uma “ode ao cu”, reverenciado como instrumento revolucionário máximo. A cena, brilhantemente fotografada, assim como todo filme, é mais forte do que qualquer arroubo de Cláudio Assis. Lacerda contrapõe militares e artistas, mas são esses que se assumem como soldados. Soldados da mudança.

A cena de sexo entre Clécio e Fininha, personagem do novato – e ótimo – Jesuíta Barbosa, é belíssima: longa, coreografada como um balé, sensual e quase explícita. De uma ousadia que deixa qualquer Sergio Bianchi no chinelo. O momento, explosivo como quase tudo em Tatuagem, também é de uma delicadeza extrema como na cena em que o casal dança ao som de A Noite do Meu Bem. Mesmo quando recicla ideias e símbolos desgastados, como esta canção, Lacerda encontra o tom para encaixá-los na linha da vida de seu filme. História e trangressão caminham lado a lado. E de mãos dadas.

Da direção de fotografia ao desenho de som, da trilha sonora ao texto, das interpretações à montagem. Tudo é lindo e tudo é vivo em Tatuagem. Não existe escândalo na aproximação entre o diretor do grupo de teatro e o soldado. Não existe estranhamento no fato de um homossexual assumido ter tido um filho com uma mulher bem resolvida. Não existe tratamento diferente para as afetações e os trejeitos de personagens como Paulete. A viadagem também era a vida em 1978, diz Lacerda. Cabe ao mundo, atrasado, acompanhar.

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[Tatuagem, Hilton Lacerda, 2013]

Um Dia Desses

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[Any Day Now, Travis Fine, 2012]

A alcunha de “baseado em fatos reais” parece ser motivo suficiente para que um filme tente se impor como obra importante. A trama de Um Dia Desses é simpática e cheia de boas intenções – um casal gay tenta adotar uma criança com síndrome de down nos anos 70 -, mas a realização do filme deixa bastante a desejar. O maior problema talvez seja que o diretor nunca consegue reunir elementos necessários para que o espectador acredite no casal. O lado musical do personagem de Alan Cummings, que parece agora se dedicar a filmes segmentados, nunca encontra um espaço correto para se inserir na trama. Garret Dillahunt não acerta o tom, exceto no seu discurso final no tribunal. O Marco de Isaac Leyva é adorável, mas isso não faz de um filme um filme bom.

Eu Sou Divine

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[I Am Divine, Jeffrey Schwarz, 2013]

De Baltimore para o mundo, este documentário convencional sobre um protagonista espetacular tenta traduzir Divine, a drag queen que protagonizou os filmes de John Waters e se tornou ícone pop em meados dos anos 70. O trabalho de pesquisa é excelente e revela um personagem complexo, diferente das informações que tínhamos dele. Jeffrey Schwarz reuniu um material invejável para construir essa trajetória, incluindo entrevistas com Waters, a mãe de Divine e vários de seus amigos e parceiros de trabalho. Além dos longa estrelados pela drag queen, há muitos vídeos de suas apresentações em casas do shows.  O trabalho de arte valoriza e multiplica as  imagens, ajudando a seduzir quem assiste ao filme com Divine seduzia quem estava em volta dela.

Hawaii

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[Hawaii, Marco Berger, 2013]

Terceiro filme com temática gay do argentino Marco Berger, Hawaii sofre pela falta de um conjunto dramático mais substancial. A proposta do longa parece herança das minúsculas tramas do cinema pornô, cheia de coincidências absurdas e deixando ganchos para que a ação siga em frente, o que deveria, mas não acontece muito bem. O jogo de sedução entre os dois protagonistas não obedece a timing algum, parece oco, fora de lugar e principalmente esticado. Se fosse um curta de 20 minutos, talvez fosse mais feliz. O resultado é que os dois atores têm que lidar com um imenso vazio. A sequência final, que explica o título do filme e soluciona a questão, é o único momento em que a trama avança.

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