Elefante

Não existe mudança de câmera em nenhuma cena de Elefante. Tudo o que acontece em cada seqüência é mostrado sem cortes. Parece que o diretor não quer que nada se interponha entre o que está na tela e quem está na sua frente. Talvez não existam meias-verdades para Gus Van Sant. O tom documental está explícito em todos os fotogramas desta recriação livre do massacre promovido por dois adolescentes na escola onde estudavam, em Columbine, nos Estados Unidos, no fim dos anos 90.

Van Sant tinha um plano: narrar o dia do episódio sob a perspectiva de vários personagens, alunos do colégio, coadjuvantes da chacina dos colegas. John chega à escola trazido por seu pai bêbado. Elias se dirige ao laboratório onde prepara suas fotos enquanto elabora seu futuro. Michelle tenta esconder o corpo esquisito das outras moças da aula de educação física. E Eric e Alex querem justiça. Não é certo que sejam importunados pelos atletas gostosões quando estão quietos no seu canto.

Tudo pronto para se contar uma história. O painel de personagens montado por Van Sant é eficiente – e demonstra exatidão. Sob o lápis do diretor, os arquétipos básicos encontrados naquela que talvez seja a época mais confusa da vida, a adolescência. Todos tratados com a delicadeza de quem transforma os clichês em identificação. A inquietação, a auto-afirmação, a futilidade, a não-aceitação, as crises familiares; tudo é apresentado sem profundidade e muito menos descaso.

Para Van Sant, o adolescente é o ser humano em elaboração diante de um mundo onde é cada vez mais difícil determinar o que é certo ou errado. Eric e Alex tentam não se deixar capturar por uma estrutura invisível que estabelece regras. Mas não há fúria. Há pouco juízo de valor na história contada pelo cineasta. Nesse sentido, ele é mais documental que Tiros em Columbine, o espetáculo autopromocional de Michael Moore, inspirado pelo mesmo episódio. A câmera mostra e o espectador chegas as suas conclusões. Não há heróis ou vilões no filme, apenas vítimas.

Curiosamente, a narrativa simples adotada pelo diretor permite sua evolução como cineasta. Elefante é provavelmente o melhor e mais bem realizado filme de Gus Van Sant. A fotografia de Harry Savides, o mesmo do excepcional Gerry, e a montagem que vai e volta no tempo não são novidades, mas proporcionam ao espectador o diferencial que o cinema tem para com as outras artes. A propriedade de manipulação de tempo e espaço através da imagem, como diria Stanley Kubrick. Manipulação que não é maniqueísta, mas que revela uma realidade assustadora.

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[Elephant, Gus Van Sant, 2003]

Comentários

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6 comentários sobre “Elefante”

  1. A forma como as cenas foram filmadas é muito interessante. Adorei, apesar de simples, direto e sem interferências artísticas -ou melhor, sua forma “documental”. Enfim… Há uma “mensagem” simples, mas o filme foi produzido de uma maneira que cativa.

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