A próxima página do cinema brasileiro

“E você, gosta de cinema?”. O menino de uns de 16, 17 anos fez uma cara que não, mas logo disse que tinha feitos uns testes. “Ah, você quer ser ator…”. Nos bastidores dos festivais de cinema, conversas de todos os tipos. Eu, provavelmente, vou conseguir ver pouca coisa no Panorama do Cinema Mundial, que acontece em Salvador até o dia 18. Culpa dos meus horários, como sempre. Mas no fim de semana passado, vi meu primeiro filme na mostra. Logo na chegada para a sessão de Bens Confiscados, último longa de Carlos Reichenbach, poucas pessoas esperavam na ante-sala de onde o filme seria projetado.

Entre elas, uma mulher de quem eu sentei próximo. Um café e um catálogo depois, eu já estava do outro lado da sala. Quando ouvia outra conversa sobre a criação de um pólo de cinema na Bahia, meus ouvidos e os ouvidos das outras pessoas que estavam no local foram invadidos por “pelas ruas onde andas / onde mandas todos nós / somos sempre mensageiros / esperando tua voz”. Era Dona, do Sá & Guarabyra, num lugar onde o máximo que eu esperaria era um Bob Marley ou um Los Hermanos, sei lá. A voz era a da moça que estava sentada perto de mim. Moça que logo fez alguma amigas, talvez por seus dotes vocais (teve Cidade Marvilhosa e Demais, da Verônica Sabino, no cardápio).

Elas falaram sobre o curta que seria apresentado antes do filme de Reichenbach. A Velha e o Mar, de Petrus Cariry (não sei qual o parentesco dele com o Rosemberg Cariry…). As garotas perguntavam o que esperar do filme. A moça, em tom de ameaça, mandou que elas não se deixassem levar pelos códigos que o diretor pudesse lançar para a platéia para, segundo ela, em outras palavras, dar um tom intelectualóide ao filme. Tenham suas próprias conclusões, intimou. “Eu defendo a inteligência como uma mãe defende seu filho”, completou. Fiquei com medo. Do filme, não. Da moça. Mas ela era inofensiva. E o filme não era diferente. O curta de Cariry sobre a velha senhora cuja vida levou para à beira do mar, de onde tira seu sustento faz aquela linha “o personagem que se explique” e nada mais. Não é ruim, mas bom está longe de ser. E aí eu segui para o Carlão.

Bens Confiscados tem, a meu ver, as mesmas falhas de Garotas do ABC, filme anterior do diretor, de que eu não gostei muito. E estas falhas passam, diretamente, pelo roteiro, que não raramente tem uns momentos truncados, e pelo texto, que usa algumas frases feitas e lugares comuns. Mas o último trabalho de Reichenbach tem um trunfo impressionante: um acertadíssimo tom melancólico que vai das histórias e movimentos das personagens à fotografia cuidadosa. É como se a paisagem das frias praias do sul fosse absorvido pelo filme como um todo, seja na câmera, seja na condução dos atores.

O mérito não é exatamente do elenco, que de uma maneira geral, está bem fraco, mas da intenção do filme de criar esta atmosfera triste. Betty Faria usa sua canastrice como arma para criar uma personagem frágil. Assim como sua atriz, Reinchenbach não teme se aproximar da farsa (como na roupa da estilista ou nas atuações de André Abujamra, ruim, e Beth Goulart, acima do tom) para dar base para a história que pretende contar. No final, o romance que surge é o que menos interessa. O pequeno encontro, que acontece sem intenção, serve para que os protagonistas reflitam sobre suas próprias angústias. Todas as cenas à beira-mar reforçam esses momentos de reflexão. Se algumas vezes, a palavra é usada em demasia onde poderia haver apenas imagem, Bens Confiscados parece muito sincero em seu propósito de parar e pensar.

Antes de ir para casa, resolvi dar uma chance ao cinema carioca. Bendito Fruto tinha entrado em circuito e o cinema é bem pertinho de casa. No Cinema do Museu, em Salvador, há várias revistas (sobre cinema em si ou sobre cultura em geral) à disposição dos espectadores. Peguei a Bravo! que falava sobre o cinema brasileiro de hoje, que lembrava das estréias de Walter Salles e Fernando Meirelles em língua inglesa. Materinha correta, o que me chamou a atenção foi a sobriedade da entrevista com o Meirelles, que me pareceu bem lúcido e bem pouco deslumbrado. Na entrevista, ou na reportagem, não lembro direito porque li muito rapidinho, alguém disse que os temas do cinema brasileiro continuavam os mesmos do cinema novo: a vida no sertão, as mazelas sociais nas grandes cidades. Achei curioso que eu estava ali justamente para ver um filme que fugia dessa temática.

O trailer induzia o espectador a acreditar que o filme de Sérgio Goldenberg era uma comédia de costumes com aquele acento tipicamente carioca, onde a malandragem parece um conceito muito particular para o Rio de Janeiro e que soa, de certa forma, distante do resto do país. Foge também daquele esquema de peças engraçadinhas com trocadilhos no título que infestam os teatros brasileiros. Bendito Fruto segue uma linha bastante diversa destas, ampliando seu alcance como pequena crônica do cotidiano, fugindo de estereótipos e com algumas soluções muito cinematográficas para as armadilhas propostas.

O texto, que sempre é acessível e popular, não apela para o vulgar e tem um timing para comédia muito eficiente. Há um belo número de piadas, algo que geralmente soa depreciativo, durante a projeção. De boas piadas… que se inserem numa história que trata com delicadeza temas como a diferença e o preconceito. O que mais funciona é que isso acontece sem nunca se pretender profundidade ou assumir tom panfletário. O filme, uma comédia essencialmente, tem muitos momentos tristes e, no geral, tem um clima melancólico.

A escalação do elenco também é um acerto, desde a inusitada escolha de Otávio Augusto como protagonista. Quem domina o filme, no entanto, é Zezeh Barbosa, bem distante da versão maluquinha que a consagrou na televisão. Pena que, a certo ponto, o roteiro a abandone um pouco. De resto, há um Eduardo Moscovis correto, uma Camila Pitanga perfeita e uma Lúcia Alves, atriz bem boa que o mundo deixou pra trás, num belo papel, com clima de flashback de rádio FM. O filme é um mosaico surpreendente e bastante funcional. Bendito Fruto pode não ser grande, mas é bem maior do que o Rio de Janeiro.

BENS CONFISCADOS
Bens Confiscados, Brasil, 2005.
Direção: Carlos Reichenbach.
Roteiro: Carlos Reichenbach e Daniel Chaia, com argumento de Reichenbach.
Elenco: Betty Faria, Renan Augusto, Werner Schünemann, Antônio Grassi, Eduardo Dussek, Márcia de Oliveira, Marina Person, Fernanda Carvalho Leite.
Fotografia: Jacob Sarmento Solitrenick. Montagem: Cristina Amaral. Direção de Arte: Luís Rossi. Música: Ivan Lins e Nélson Ayres. Produção: Sara Silveira e Betty Faria. Site Oficial: Bens Confiscados. Duração: 108 min.

BENDITO FRUTO
Bendito Fruto, Brasil, 2005.
Direção: Sérgio Goldenberg.
Roteiro: Rosane Lima e Sérgio Goldenberg.
Elenco: Otávio Augusto, Zezeh Barbosa, Vera Holtz, Lúcia Alves, Camila Pitanga, Eduardo Moscovis, Evandro Machado, Enrique Diaz, Thelmo Fernandes, Mariana Lima.
Fotografia: Antônio Luís Mendes. Montagem: Flávia Celestino e Jordana Berg. Direção de Arte: Cláudio Amaral Peixoto. Música: Fernando Moura. Figurinos: Angéle Fróes. Produção: Martha Ferraris. Site Oficial: Bendito Fruto. Duração: 90 min.

nas picapes: Nem Dawn Fades, New Order & Moby.

Comentários

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13 comentários sobre “Bens Confiscados e Bendito Fruto”

  1. Eu adoro BENS CONFISCADOS tb, vi em Tiradentes. Um filme, como bem disse o Chico, de pura melancolia e solidão, de pessoas literalmente à margem tentando redescobrir motivos pra viver, dar e receber amor. Acho tudo bonito ali, em especial as cenas finais e o plano-sequencia do começo, absolutamente genial…

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