Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

Há um certo preconceito intelectual com o universo de Harry Potter, a criação milionária da inglesa J. K. Rowling. A pequena massa culta estranha um personagem popular surgido em meio a uma realidade fantástica, que gera livros em série e mais games, filmes, camisetas, bonés e bonequinhos. O bruxinho criado por Rowling é visto mais como produto com fins lucrativos que como obra. Potter, numa visão simplificada da questão, é raso, fácil e com um forte poder de abstração do que realmente conta. O primeiro problema talvez seja estabelecer o que realmente conta. O segundo, e talvez mais grave, é desconhecer a obra em si por preconceito – e falar mal dela mesmo assim.

Harry Potter, no entanto, não é apenas o maior fenômeno da literatura infantil dos últimos vinte ou trinta anos. É a maior criação literária destinada a este perfil de público leitor neste mesmo período de tempo. Uma elaborada criação literária, é verdade, que incorpora mitologias, lendas e fábulas para contar uma história sobre um menino que começa a virar homem. Bobinho, não é? Ingênuo. Mas Potter é exatamente isso. Um menino crescendo. Um garoto que descobre a cada dia, com cada situação, que o tempo passa e provoca mudanças nele e em seus amigos. Transformações no corpo e na mente. E realmente não há nada de fantástico nisso. Qualquer um que está lendo este texto enfrentou essas transformações, mudou com estas mudanças.

O melhor de Harry Potter é como sua autora consegue criar um ambiente de fascínio e identificação sugerido pela palavra. Rowling é uma escritora extremamente popular e muito talentosa. Um talento talvez bem limitado de acordo com visões mais exigentes, mas é inegável sua capacidade de envolver o leitor através de um universo que estava em desuso, num lento processo de decadência e de esquecimento. Bruxos, criaturas míticas, seres malvados deixam mais carinhosa a relação de quem lê com o que está no papel. Harry Potter exalta o lúdico e a criança. Talvez seja por isso que as duas primeiras investidas do bruxo no cinema sejam dois filmes para a criança. Dois filmes bons, mas dois filmes feitos para o público infantil.

O diretor Chris Columbus assumiu o compromisso de dirigir uma aventura para meninos e meninas. E fez isso duas vezes. A Pedra Filosofal (01) e A Câmara Secreta (02) são belos trabalhos para um público específico. A terceira incursão do personagem no cinema reverte tudo isso. Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban evolui significativamente em relação aos filmes anteriores: é uma história sobre meninos crescendo. O melhor é que o longa não se estrutura sobre as obviedades da concepção de responsabilidade ou o amadurecimento em troca da infância. O filme é sobre olhar para o mundo de uma maneira nova.

Harry, Hermione e Ron dominam filme. Tudo gira em torno deles, o que até prejudica um pouco a participação dos adultos veteranos do elenco. Maggie Smith, por exemplo, tem uma pequena cena. Mas em compensação a opção do novo diretor Alfonso Cuarón (do belo A Princesinha, 95) por priorizar o trio permite as mudanças de tom do filme. O Prisioneiro de Azkaban é o Potter mais sombrio dos que já chegaram às telas. Como o humor de um adolescente. O mundo não é mais tão colorido e o esplendor visual pode vir da figura macabra de um dementador, a nova criatura mágica criada por Rowling. A magia, por sinal, é a grande novidade deste terceiro capítulo da série. No filme, os garotos finalmente se mostram bruxos. Os feitiços são mais visíveis e o universo místico está espalhado por todas as cenas, sobretudo as que revelam mais um pouco do passado do protagonista e acenam para seu destino.

O diretor recém-chegado foi feliz na escolha dos novos integrantes do elenco: Gary Oldman e David Thewlis, ambos perfeitos, e Timothy Spall, em ritmo acelerado. Emma Thompson é que não escapa do exagero na caracterização da nova professora. Michael Gambon é um grande ator, mas seu Dumbledore dá bastante saudade de Richard Harris. No entanto, o grande destaque do novo elenco é o hipogrifo criado pelas maravilhas da tecnologia que permitiram uma cena de absoluto deslumbre visual.

A chegada de Cuarón e de suas intenções de investigar os adolescentes em formação ganhou uma ajuda inusitada: o crescimento dos três pequenos protagonistas. É o melhor desempenho de Daniel Radcliffe na série. Nos dois filmes anteriores, Harry estava à sombra de personagens mais ricos em nuanças como Hermione e Ron, os contrapontos cômicos para o bom menino. Agora, com mais espaço, Radcliffe está seguro, com presença mais marcada. Melhor ator mesmo (embora Emma Watson ainda tenha a grande performance do filme – no primeiro, era até covardia compará-los). É curioso perceber que ao deixar Harry, Hermione e Ron no comando, Cuarón foi responsável por uma quase-dicotomia: O Prisioneiro de Azkaban é o mais adolescente dos três filmes. E também é o longa mais adulto. Mistérios de quem está crescendo.

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Harry Potter and the Prisoner of Azkaban, Alfonso Cuarón, 2004]

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