DOGMA DO AMOR

Nada como um filme depois do outro. A frase é feita, mas serve bem para o caso do dinarmaquês Thomas Vintenberg. Cinco anos depois do celebrado Festa de Família, único filme realmente bom daquela bobagem que se costuma chamar de Dogma 95, o cineasta nos entrega este It’s All About Love (se o filme merecesse, eu falaria que o título brasileiro é o pior dos últimos dez anos…). O novo filme do diretor tem um problema grave: é um lixo. Os psicotrópicos de que Vintenberg tem abusado recentemente fizeram-no acreditar no sucesso de uma trama noir-urbano-maquiavélico-futurista, mas também devem tê-lo feito perder as aulas que tomaria com David Lynch.

A história que o dinamarquês pretende contar em Dogma de Amor não é apenas estapafúrdia e esquálida, mas é dotada de uma pretensão de níveis estratosféricos. Tudo começa quando um homem vai ao encontro da mulher, de quem está separado, para assinar os papéis do divórcio. O encontro que deveria acontecer num aeroporto é adiado sem explicação, o que gera uma sucessão de eventos esquisitos e o começo de uma trama mirabolante. Vintenberg deve ter assistido aos filmes de David Lynch muitas vezes. Copiou deles os cenários quase kitsch e os personagens grotescos. Tenta imitar as trilhas soturnas de Angelo Badalamenti e a edição sígnica de Mary Sweeney. Mas faltou talento e sobrou intenção.

A imbecilidade que emana do roteiro suga qualquer possibilidade de interpretação dos geralmente bons Joaquin Phoenix e Claire Danes. Da última vez em que eles estiveram juntos (no subestimado Reviravolta, 98, de Oliver Stone), o clima era tão fake quanto, mas o resultado ficou bem acima da média. Danes, quadruplicada, se encerra numa jaula de exageros dramáticos, e Phoenix simplesmente não consegue existir no filme. Vintenberg deve ter uma lábia e tanto para convencer o casal a topar um roteiro tão tosco e ainda conseguir uma ponta de Sean Penn, num papel tão sem razão de ser. O pior de tudo é tentar fazer o espectador acreditar que o filme é uma história de amor… diferente. Acho que ninguém caiu nessa, né?

Dogma de Amor
It’s All Albout Love, EUA, 2003
Direção: Thomas Vintenberg.
Elenco: Joaquin Phoenix, Claire Danes, Sean Penn, Douglas Henshall, Alun Armstrong, Margo Martindale, Mark Strong, Geoffrey Hutchings, Sean-Michael Smith, Harry Ditson.
Roteiro: Mogens Rukov e Thomas Vinterberg. Produção: Birgitte Hald. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Música: Nikolaj Egelund e Zbigniew Preisner. Direção de Arte: Ben van Os. Edição: Valdís Óskarsdóttir. Figurinos: Ellen Lens.

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