René Guerra

“Não se preocupe, a culpa foi minha”, avisa René Guerra. Recado – e mantra – do diretor alagoano para seus colegas mais próximos, os atores. É assim que as peças de teatro e os curtas, que vieram depois, foram feitos, em parceria. Depois de duas incursões pelo universo dos transsexuais, o novo filme do cineasta, codirigido por Juliana Vicente, discute as novas famílias, em especial, as famílias gays, pelo olhar de uma criança. O Olho e o Zarolho (leia a crítica) é um dos destaques do Festival de Curtas de São Paulo. No meio do furacão do evento, René deu uma entrevista para o Filmes do Chico, onde falou sobre o cinema gay brasileiro, seus filmes favoritos e sobre como o mundo das travestis o fascina.

Como surgiu a ideia para O Olho e o Zarolho?

Chico, o argumento surgiu em 2002, como exercício de faculdade. Demorou muito, né? Mas você acredita que eu só poderia dirigir esse filme, com todos esses desafios, hoje? Acompanhado com a Juliana, nessa experiência quase de casamento. Eu tenho uma pequena obsessão pela mães, por esse vínculo poderoso de engrandecer ou atrofiar. Acho que independe, inclusive do sexo, mas o ser que se apropria desse arquétipo é o ser detentor da vida e da morte de quem é alimentado, esse papel gera muitas ambiguidades, por que muitas vezes as maiores atrocidades são chamadas de amor, como por exemplo não deixar o seu filho assumir o seu papel de gente, de indivíduo. Amo esse arquetipo e a antitese dele também.

É seu primeiro trabalho sob um olhar infantil. Que preocupações você tomou para entrar nesse universo?

Muita pesquisa, como sempre. Uma escolha intuitiva e meio passional pelos atores. Eu acredito muito na intuição da Juliana. Ela vê os potenciais dos atores em estado bem bruto, ela tem fé nessa intuição. Amo trabalhar com atores. E uma equipe pontual para essa jornada.

O ornitorrinco, o animal bonito e esquisito, é uma espécie de metáfora para tantas questões delicadas que despertam visões e reações diferentes, como a educação de uma criança, uma relação homossexual e até preconceito?

A Juliana Vicente tem um vinculo pessoal com o Projeto Casulo, que é uma ONG que protege as crianças da comunidade do Real Parque e do Jardim Panorama, protege o tempo de ócio delas com arte, entre outras ações de inserção ao mercado de trabalho e a cidadania.

Escolhemos esse projeto para simbolizar uma escola utópica. Uma escola que olhe as diferenças como as crianças fazem, sem julgamento. Aconteceu uma situação de preconceito na aula de música do Projeto Casulo e o professor, Renato Gama, tratou a questão através de uma composição coletiva com as crianças. Essa é a história dessa música. De alguém que é diferente e é lindo.

Acreditamos que a escola é, sim, o palco mais importante para essa discussão atual sobre a família gay, a própria questão do que foi chamado de forma bem preconceituosa “kit gay”. Os países com políticas mais retrógradas do mundo usam sempre essa desculpa, não tocar nesse assunto, por que tratar é propagandear.

Precisamos lidar com a representatividade de uma nova construção de família, sem melindres, de forma aberta e clara. Na escola, uma casal gay vai ter que ser inserido na reunião de pais, sim, não por que é direito nosso, apenas, mas por que existimos, físico, emocional e afetivamente. Essas famílias não são invenção e nem moda, elas são fato. Incluo também outras construções de família. E é nesse palco que as pessoas de bem dizem, aquele “outro”, aquela outra formação de família existe sim.

Um filha de uma amiga perguntou pra mãe: – mãe, menina pode namorar com menina? A mãe respondeu: – claro que sim, filha. – Pois alguém precisa avisar pra mãe da Bianca que ela não tá sabendo disso não, foi a resposta da menina. As crianças são bem mais inteligentes do que a gente imagina.

Você assina a direção junto com a Juliana Vicente. As funções foram separadas?

Concebemos o filme juntos, e vivenciamos funções em posicões diferentes: eu, o pássaro que olha, e ela, o pássaro que bica. Digo que eu dirigi de fora pra dentro e ela de dentro pra fora.

Seus filmes mostram um grande cuidado visual. Como você decide que cara vai ter um filme seu?

Existe um rigor formal nos quadros que parte do que me emociona mesmo. É claro que quando dois diretores dirigem juntos, um dos pressupostos é que esses temperos sejam equilibrados pra nós dois. Eu sou mais apolíneo e Juliana á mais dionísiaca, ela gosta da confusão, de colocar tempero nas coisas e depois ver o que de vida surgiu. Não dá pra comer só uma banda da acarajé, por que a Juliana apimentou demais o outro lado, né?. Então a nossa parceria encontra nessa relação entre forma e caos. Eu nunca me meteria com um grupo de 30 crianças sozinho. Tudo bem que eu já dirigi uma cena com 30 travestis, que quase são tão danadas quanto. Encontramos juntos algumas referencias estéticas que sobrevivessem a esse tipo de mise en scene. Nesse caso, foi um grande aprendizado olhar filmes onde a câmera flutuasse na busca de algo, de algum momento, qualquer coisa que sinalizasse vida.

Os Sapatos de Aristeu e Quem Tem Medo de Cris Negão? são filmes em que os transsexuais estão no centro da trama. O que te fascina nesse universo?

As travestis são minhas heroínas. Quando olho para elas, sinto o quanto as minhas escolhas ainda são ditadas pelo olhar dos outros. Ironicamente, as “bunitas” são construídas para esse lugar do ser olhado. Mas a questão é muito maior do que essa pequena parte. Elas são essa construção e elas apontam pra mim que eu também sou. Ao invés de achar que elas são loucas, o que é verdade, e eu também estou na mesma turma, eu olho a construção delas e penso que eu posso estar mais livre em me reconstruir.

Ela me lembram isso, que tanto o homem quanto a mulher podem se reconstruir sem necessariamente mudarem de gênero.

Como você vê a homossexualidade sendo discutida no cinema brasileiro?

Acho que estamos muito bem obrigado. Temos pessoas incríveis, subvertendo de formas diferentes. O Hilton Lacerda marca a história do cinema brasileiro com um dos filmes mais libertários que eu já vi na minha vida, tão libertário que eu nem sei se fala só pros gays. Acho o Tatuagem é trans tudo. O Armando Praça com as travas romeiras e católicas rezando e lendo Caio F., Marcelo Caetano cada vez mais subvertendo esteticamente as barreiras do afeto e do corpo, o Daniel Ribeiro que ao fazer um filme gay num formato mais clássico faz com que essa discussão entre sem revolução para a mesa, o Gustavo Vinagre com o seu post-porn imobiliário, a Claudia Priscilla cujo trabalho amo tanto e que está mergulhada na mesma seara afetiva e transgressora que a minha. E tantos outros, somos um povo corajoso pra caralho.

Você tem planos para os próximos projetos? Quem sabe um longa?

Meu filme de estréia é o Lili e as Libélulas, somos o representante brasileiro de um dos Laboratórios de desenvolvimento de projetos mais importantes do mundo, O Framework do Festival de Torino. Acho que eu, a Ju e todas as travas vamos nos graduar com esse longa.

Você começou sua carreira no teatro. Como foi sua transição do palco para a tela?

O teatro me ensinou coisas pra caralho, me ensinou a dialogar com o ator, com estar do seu lado, segurando na mão e dizendo, que eu também sei, que é foda estar vivo no meio de tanta parafernália, no meio de tanta câmera, mas que a gente precisa saltar nesse lugar, nessa queda livre, mas que eu caio junto e se a gente se estatelar no chão, “não se preocupe, a culpa foi minha”. Minha e da Juliana (risos).

Quais são suas influências no cinema? E seus filmes favoritos?

Chico, eu sou aquele que bebe dos “deuses do melodrama”, se sente culpado pelo escândalo causado, pede desculpa, reza um pouco, entra em depressão e depois faz outro barraco. Então minha relação quase obsessiva gira em torno do universo Sirkiano, ele mesmo Deus Douglas Sirk, Mike Leigh, do Fassbinder, nego muito o Almodovar, mas de tanto negar sei o quanto ele me influencia por negação, Joaquim Pedro de Andrade, Jane Campion, Bob Fosse, acho que se houver lista clichê de diretor gay, eu devo ter alcançado nota máxima. Amo, muito, James Ivory e muito do Kitchen Sink Drama, movimento do cinema inglês dos anos 60.

Meu top 10 é:

1 Minha Adorável Lavanderia [Stephen Frears, 1985]
2 Segredos e Mentiras [Mike Leigh, 1996]
3 Um Anjo em Minha Mesa [Jane Campion, 1990]
4 Uma Janela para o Amor [James Ivory, 1986]
5 O Medo Devora a Alma [Rainer Werner Fassbinder, 1974]
6 Tudo que o Céu Permite [Douglas Sirk, 1955]
7 O Padre e a Moça [Joaquim Pedro de Andrade, 1966]
8 Matador [Pedro Almodóvar, 1986]
9 Os Amantes da Pont Neuf [Leos Carax, 1991]
10 Noites de Cabíria [Federico Fellini, 1957]

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5 comentários sobre “Entrevista René Guerra”

  1. "O Hilton Lacerda marca a história do cinema brasileiro com um dos filmes mais libertários que eu já vi na minha vida, tão libertário que eu nem sei se fala só pros gays. Acho o Tatuagem é trans tudo…." Trans tudo que dá um tesão da porra depois do filme!

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