Festival do Rio: rapidinhas 3

Flor do Equinócio , de Yasujiro Ozu.

Ozu em estado mais puro, feminista em pleno Japão dos anos 50. Sua crônica social, cotidiana tem momentos genuínos, entre a inocência e a crítica. Sua habilidade para extrair um humor nobre e refinado raramente visto num filme é grande.

Tapete Vermelho , de Luiz Alberto Pereira.

Surpresinha boa. Nachtergaele reprisa o Jeca Tatu com precisão, se a gente perdeu a visão preconceituosa de que aquilo é uma cópia. A pequena jornada dele e de sua família (Gorete Milagres, ótima!!!) em busca de um filme de Mazzaroppi (lúdico, ingênuo) e o choque com o mundo moderno e a cidade grande, o que poderia se transformar isso aqui num filme-denúncia chatinho consegue, a partir de algumas belas idéias que passam por não ser veemente em quase nada, um resultado muito além.

Transamérica , de Duncan Tucker.

Felicity Huffman, de Desperate Housewifes, que eu nunca vi, cotada para o Oscar. Ela está ok, mas o que mais chama atenção é mais sua personagem do que sua interpretação em si. O filme segue uma fórmula de reencontro familiar que não acrescenta muita coisa ao que já se viu. É simpático, só isso.

Seven Swords , de Tsui Hark.

É tudo aquilo que ele queria. Um filme de artes marciais, muito melhor filmado que os homens voadores de Zhang Yimou e calcado basicamente num cinema mais realista, com a fábula em segundo plano. Hark mostra um domínio inevjável de montagem, sonoplastia e enquadramentos. O deserto chinês ganha tela cheia e remete a John Ford. Não consegui parar de pensar em John Ford durante o filme. O grande, o imenso, a honra e a justiça. Os momentos melodramáticos demais tiraram uma estrelinha.

Árido Movie , de Lírio Ferreira.

Não gostei muito do final, que se rendeu a “mudernidade”. Mas a volta de Lírio Ferreira aos longas depois de nove anos rendeu um filme “do caralho”: texto pop e redondinho, com sacadas inteligentes e devaneios muito bem encaixados no contexto. Filamdo em digital, tem uma fotografia maravilhosa (observem a cena dos retrovisores). Guilherme Weber, eu acho um equívoco, mas o resto do elenco está bem demais, com destaque para a trupe de amigos do protagonista (Selton Mello, gordão, ótimo). Muita maconha, alguma filosofia e a uma boa sensação de ver cinema no sertão sem mostrar as agruras da vida do sertanejo.

Don’t Come Knocking , de Wim Wenders.

Vão me linchar, mas eu acho o melhor filme do Wim Wenders em muito, muito tempo (se bem que isso talvez não seja muita coisa). Tem um ponto de partida bem parecido com o de Flores Partidas, do Jarmusch, mas segue caminhos diferentes. A busca pelo que pode mudar a visão que o protagonista tem da vida seria o que há de mais comum entre os dois filmes. Gosto muito da personagem da Sarah Polley, que surge e some na falta de uma explicação completa. O texto do Sam Shepard com o Wenders tem belos momentos e também muitas partes fracas, mas até delas eu me agradei. Não sei se o fato de eu quase nunca gostar do Wenders ajudou (ou se foi porque eu cheguei 40 minutos atrasado e o filme só tinha começado 2 minutos antes), mas este filme superou o que eu esperava dele.

Era uma Vez em Tóquio , de Yasujiro Ozu.

Começa com uma proposta quase ingênua, desacreditando das pesssoas, mas lentamente se transforma num quase-pesadelo assustadoramente real. Provavelmente o melhor filme sobre o envelhecimento, ao lado de Morangos Silvestres, do Bergman. O que mais amplifica sua força é justamente a natureza da cultura japonesa. Numa terra em que abraços, beijos, toques – algo tão intrinsecamente ligado ao carinho quando o lado do mundo é o outro – o golpe que o casal sofre dos próprios filhos é muito mais grotesco e impiedoso. A cena em que a velhinha não resite à emoção frente à unica manifestação de afeto que recebe é de partir o coração.

P.S. 1: encontrei o Guga rapidinho pouco depois do filme do Ozu. Não deu pra conversar muito porque os caminhos eram diferentes. Quem sabe a gente não se esbarra por aí? Por sinal, tô com a sensação que já cruzei com gente que conheço daqui do blogue, não reconheci, e posso estar passando por mal educado.

P.S. 2: saiu a repescagem. Vou conseguir ver mais alguns antes de ir para São Paulo, na terça. O Mundo, entre eles. O Last Days, só se o Leon Cakoff me der este presente.

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2 comentários sobre “Festival do Rio 2005: dia 3”

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