Flores Raras

O peso da verdade é quase sempre a maior maldição das histórias baseadas em fatos reais. No cinema, a expressão chega a assustar porque, não raramente, significa filmes engessados por suas responsabilidades históricas. O compromisso em narrar os fatos pode, muitas vezes, ultrapassar o próprio desenvolvimento dos personagens. Quando um cineasta reconhecidamente mais tradicional como Bruno Barreto se aventura por um projeto desta natureza, a desconfiança é natural, mas Flores Raras, apesar de seu academicismo, tem algumas pequenas delicadezas.

Barreto nunca foi muito afeito a correr riscos, é preciso ter isso em mente. Então, somente o fato de ter escolhido um romance homossexual como tema de um longa seu já é aventura suficiente para o diretor. E ele assume isso: o casamento gay entre a poeta americana Elizabeth Bishop e a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares está sempre em primeiro plano, mesmo quando Barreto se vê na obrigação de contextualizar o espectador.

Curioso perceber que este é um filme em que há política em torno de tudo, mas o diretor parece assumir uma postura apolítica. Sua contribuição parece ser o próprio filme em si, bem fotografado, bem musicado, com algumas sequências – por que não dizer? – ousadas, como uma cena de sexo entre as protagonistas. O filme começa forte com o desenho da aproximação entre as personagens. Todas as cenas que mostram como começou a relação entre as duas são atraentes, com Barreto reservando o tempo necessário para que essa história se desenvolva e para que o espectador acredite nela.

Começa aí um trabalho delicado de direção das atrizes. Miranda Otto, sem fazer muito esforço, encontra a intensidade certa para mostrar a fragilidade da poeta. Já Glória Pires consegue dar a volta numa personagem que poderia facilmente cair na caricatura por causa dos trejeitos masculinizados. Mesmo que não pareça totalmente à vontade interpretando 95% do tempo em inglês, a atriz consegue humanizar sua personagem embora o filme às vezes pareça querer simplificar demais as coisas. Nas cenas de apoio, ela está brilhante. A impressão de um overacting deixada pelo trailer não se confirma.

Enquanto o filme está entregue às atrizes, funciona bem, mas o maior problema é quando Barreto resolve seguir os fatos, revelar a crise no casamento, atropelando a narrativa com explicações rápidas sobre o que acontece a seguir na vida das duas personagens, do Brasil e do mundo. É quando o tal peso da verdade entra em cena e cobra rigor histórico. Barreto, acadêmico, segue a cartilha e abre espaço para o que deveria ser sua assinatura, mas genérico como ele consegue ser muitas vezes, transforma este espaço em metáforas desnecessárias e morais da história. Sorte dele que, até ali, ele já havia conseguido namorar com a beleza da alma feminina.

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[Flores Raras, Bruno Barreto, 2013]

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