Livide

É do conflito que surgem as maiores qualidades e os maiores problemas de Livide, último filme da dupla francesa Alexandre Bustillo e Julien Maury. O longa segue duas premissas que ora trazem resultados frescos para o estilo, ora emperram o próprio funcionamento da trama. A primeira é a decisão de não explicar completamente os personagens. Mesmo quando estamos cientes do que eles fazem ainda não sabemos quem eles são. Isso funciona até o momento em que a trama se afasta muito da primeira impressão e o filme pede que decifremos alguns códigos.

A segunda premissa mora no fato de que Livide é, em sua essência, uma homenagem não a filmes de terror, mas a vários cinemas de terror. Fantasmas, tortura, taxidermia, suspense, psicopatas. Tudo convive entre as paredes da mansão que acomoda a parte realmente significativa do filme. Mas, da mesma maneira que a falta de informação sobre os personagens, essa pluralidade chega a um ponto de esgotamento.

Bustillo e Maury já haviam entregado um fortíssimo filme anterior, A Invasora, com Beatrice Dalle, que aqui faz uma pequena participação. Mas se aquele longa investia numa linhagem mais pura, este aqui se perde um pouco na pretensão. Se, de um lado, os cineastas demonstram um talento impressionante para confeccionar imagens; do outro, eles não parecem tão hábeis para transformá-las em material de gênero, embora criem uma personagem tão assustadora quanto a de Dalle, a senhora Wilson, que ganhou vida na pele de uma ótima Catherine Jacob.

O filme se divide em duas partes distintas: a primeira, mais próxima de um horror contemporâneo, dura cerca de uma hora e serve para introduzir a protagonista naquele que será seu novo universo, o dos idosos que precisam de acompanhamento. O tom é mais documental, as insinuações de suspense são mais realistas. Na segunda parte, que ocupa a meia hora final, o filme muda de tom, fica mais rico, mas o arco parece não fechar. O espectador é levado para um terreno de uma sofisticação visual extremamente detalhista, e de bom gosto, onde cada filtro e cada peça do cenário parecem ter sido escolhidos a dedo para ilustrar o macabro. Só que algumas imagens funcionam mais em conceito do que na prática. Há um belíssimo trabalho ali, mas que nem sempre cumpre seu intento.  

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[Livide, Julien Maury & Alexandre Bustillo, 2011]

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