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O Charlatão ★★
Charlatan, Agnieszka Holland, 2020

Agnieska Holland é uma diretora clássica, tanto por causa de sua longa carreira no cinema quanto por conta do excesso de formalidade que vemos em boa parte de seus filmes. “O Charlatão” é uma daquelas cinebiografias que parecem ter caído num poço de verniz reluzente ou que foram banhadas por um sol de Instagram. Tem pouco ou nenhum espaço para uma criação verdadeiramente cinematográfica ali. Se Holland tem habilidade para o melodrama, e conta com uma dupla de atores competente, seu interesse se resume ao retrato da história do herbalista Jan Mikolasek, um homem que esteve à margem dos regimes nazista e socialista. É um personagem interessantíssimo porque viveu na dualidade entre salvar vidas com suas práticas fora-da-lei ao mesmo tempo em que se beneficia pessoalmente com a proteção de regimes autoritários. Sua homossexualidade também tem espaço garantido na trama, mas todos os movimentos da diretora em relação a qualquer dos aspectos da história do personagem são em direção a um cinema muito formal, pouco criativo. Por mais que este seja seu estilo de filmar, Holland, uma cineasta tão experiente, poderia se arriscar um pouco mais.

Chico Rei Entre Nós ★★½
idem, Joyce Prado, 2020

A figura mítica de Chico Rei e o que ela representa em termos de afirmação cultural dos povos afro-brasileiros, principalmente em Minas Gerais, já são razão suficiente para justificar a existência deste documentário. Joyce Prado, estreando na direção de um longa-metragem, faz um trabalho importante de coleta de registros e depoimentos que ajudam a desenhar a importância deste personagem — que seria o rei de uma tribo no Congo, teria vindo para o Brasil como escravo e conseguido comprar sua alforria — no imaginário coletivo. Independentemente de qualquer validação histórica, este não é nem de longe o objetivo, “Chico Rei Entre Nós” mostra que o personagem ganhou uma conotação simbólica para a formação de uma identidade negra tipicamente mineira, ao mesmo tempo em que mapeia como essa comunidade manteve vivo o culto a esta figura até os dias de hoje. O documentário, por outro lado, é bastante formal, o que engessa a potencialidade do tema e de seu viés mitológico. Caso fosse mais aberto a incorporar as referências e características que coleta, este filme poderia ser ainda mais potente.

Coronation ★★½
idem, Ai Weiwei, 2020

O curioso efeito da vida real sobre a arte. A gigantesca cobertura jornalística, que acompanhamos ao longo de todo este ano, a respeito do coronavírus e da pandemia enfraquece essa investigação sobre combate à covid-19 na China feita por Ai Weiwei. O filme do multiartista — que virou cineasta das causas sociais (todas as causas sociais, diga-se) — é interessante por conta do volume de material (de flagrantes, sobretudo) que a equipe dos diretor consegue, apontando procedimentos questionáveis na operação com os infectados e no tráfego de informações por parte do governo chinês. A denúncia, aqui, é o principal objetivo do artista (como era a questão dos refugiados em “Human Flow”), mas a coleta de relatos que ele elenca neste filme é bem mais forte do que esta denúncia em si. O aspecto humano demora muito para chegar à superfície, o que além de deixar o filme mais frio do que ele poderia ser por atrasar a chegada da perspectiva dos personagens, provoca um certo esgotamento temático, já a maior parte do projeto se assemelha muito ao trabalho da imprensa feito nos últimos meses.

Escondida ★★★½
Hidden, Jafar Panahi, 2020

Apesar de ter sua “voz” silenciada pelo governo iraniano há quase uma década, Jafar Panahi escolheu não se calar. Desde 2011, quando lançou “Isto Não é um Filme”, que o cineasta não apenas se mantém na posição de artista ativo como não abandona a postura de intelectual militante contra o estado autoritário. Se a “voz” do início deste texto era uma metáfora para a obra cinematográfica deste diretor, na trama deste curta-metragem — que ele, mais uma vez, rodou secretamente –, esta “voz“ é literal. Panahi parte, com a filha e uma amiga, em busca de uma mulher que teria uma voz celestial, mas que foi proibida de cantar por sua família que tem medo de que suas notas “encantem” os jovens do vilarejo da etnia curda onde vive reclusa. Na proposta simples, que o diretor executa com ajuda de apenas dois iPhones, mas carregada de uma simbologia sobre a própria liberdade do artista e o sistema repressor reproduzido tanto pelo governo quanto pela religião no Irã. O ativismo do cineasta, que está na base de todos seus filmes, é mais uma vez colocado em prática através de uma observação singela, mas incisiva da sociedade que conhece tão bem. Até a escolha do título, “Hidden”, escondido em inglês, parece uma provocação e uma autorreferência.

Sibéria ★★★★
Siberia, Abel Ferrara, 2020

Nunca entendi muito bem o que leva uma pessoa a batizar um filho com o seu próprio nome. Uma auto-homenagem? Uma demonstração de posse? Uma vontade de continuar? Eu tenho o nome do meu pai. E, durante toda minha infância e adolescência, isso era uma questão mal resolvida pra mim. Parecia que eu não tinha identidade própria, que minha identidade estaria sempre à sombra de outra pessoa, por mais que fosse uma pessoa que eu amasse. Eu não queria ser a versão miniatura do meu pai, uma crise existencial de que eu só consegui me livrar na época da faculdade, quando, pela primeira vez na minha vida, eu virei Chico, como ele, mas assumindo uma personalidade própria.

Esta pequena digressão parece apenas um momento confessional explícito, mas foi motivada pelos sentimentos que “Sibéria”, de Abel Ferrara, provocaram em mim. No filme, Willem Dafoe vive um homem que tem uma relação complicada com a memória do pai, como se a imagem daquele homem tivesse se transformado numa figura fantasmagórica que acompanha cada momento da vida do personagem e o vazio do não dito fosse um incômodo. “Sibéria“ me pareceu a conversa íntima que eu nunca tive com meu pai, pra quem eu nunca falei – ou consegui falar – sobre sexualidade, sobre quem eu era, que era que eu era outro que não ele. Ferrara usa vários simbolismos, conceitos mitológicos e psicológicos para transformar o filme numa viagem existencialista em busca de redenção, onde o protagonista caminha em direção a si mesmo e à imagem de seu pai.

Algumas vezes, as escolhas do cineasta parecem elementos excessivamente explorados em filmes com esse teor, ou demasiadamente óbvios, mas a maneira como ele costura estas escolhas invadindo o espaço do espiritual parece um redimensionamento da maneira como ele lida com a religiosidade em seu cinema sem deixar de lado o aspecto fortemente masculino que lhe é característico. É comovente como o cineasta dos ambientes brutos abre espaço para uma visão filosófica do homem e impressionante como ele transforma este movimento em imagens. Há dezenas de momentos de grande cinema em “Sibéria”: da maneira como a câmera se descola de Dafoe e se perde nas montanhas nevadas até o encontro entre filho e pai, Dafoe e Dafoe, onde o protagonista, que se enxerga como espelho, ensaia um acerto de contas, um dedo na cara, um pedido de desculpas. Mais uma vez, o filme falou diretamente comigo e um sentimento profundo me abateu: Ô minha Sibéria, hoje todo aquele peso me parece tão bobo, que saudade de você…

Sportin’ Life ★★★
Siberia, Abel Ferrara, 2020

Boa parte de “Sportin’ Life” foi filmada durante o Festival de Berlim, quando Abel Ferrara participava da competição oficial com “Sibéria”. Logo de início, ele explica a um jornalista que este filme não é um documentário sobre seu trabalho anterior, mas um documentário sobre a arte de fazer um documentário. Uma explicação meio tola, mas que, de alguma forma ajuda a definir a estrutura caótica que se torna o próprio objeto deste projeto. Não é exatamente sobre “Sibéria”, mas também é (Willem Dafoe aparece em diversas cenas, inclusive explicando como é seu processo de criação com o cineasta). Não é propriamente um resumo de sua obra, mas também é (há cenas de vários de seus filmes . E, sobretudo, é um olhar para o mundo atual, o mundo em que um vírus mudou a maneira como nossa sociedade se organizar e como lidamos uns com os outros. Ferrara reflete especificamente sobre isso (“a realidade parece um filme de terror”) e sobre todo o resto (o planeta, o fim, George Floyd), mas se coloca numa posição de resistência ao tempo presente, fazendo música, cinema, e tentando manter a sobriedade nesta realidade embriagada.

Summertime ★★★
idem, Carlos López-Estrada, 2020

Depois de estrear com um filme tão surpreendente quanto “Ponto Cego”, é curioso que Carlos López-Estrada tenha seguido o caminho que vemos em “Summertime”. Seu primeiro longa é um potente exercício de reflexão sobre a herança que a população negra carrega ao longo da História. Neste novo filme, apesar de questões sociais estarem contempladas ao longo do roteiro, o diretor parece muito mais interessado em exercitar um formato e em desenvolver —- com bastante leveza e um certo espírito jovem —- vários temas cotidianos. Para isso costura uma coleção de poemas urbanos, como se a primeira cena de “La La Land”, sem música, mas com musicalidade, durasse um filme inteiro, embora essa não pareça ser a referência do diretor. Estrada está mais interessado na cultura hip-hop e no movimento das ruas das cidades californianas. A estrutura de musical contemporâneo, muito fechada, combina teatro e performance, poesia e música, mas, se esbanja espontaneidade, também distribui ingenuidade. As questões são apresentadas com uma certa inocência, o que contrasta com as soluções criativas e o tom sério com que os temas eram tratados no outro longa do cineasta. Além disso, num filme com esta proposta, tão fragmentado, há sequências mais fortes e outras nem tanto e o resultado, naturalmente desequilibrado se vende, muitas vezes, pela “lacração”. Mas, sem dúvida é um filme cheio de energia e vontade de acontecer, como um jovem inexperiente que está pisando pela primeira vez em cima de um palco.

(+)

Lista com todos os filmes que vi na Mostra de 2020 comentados aqui no blog.

Lista com todo os filmes da seleção já vistos no Letterboxd.

Informações básicas: a 44ª Mostra de Cinema de São Paulo acontece online a partir de 22 de outubro e vai até dia 4 de novembro. As informações detalhas sobre o evento e sobre cada produção exibida estão no site da Mostra. A maior parte dos filmes será exibida na plataforma Mostra Play, criada para o evento. Cada filme vai custar R$ 6 e pode ser comprado na própria plataforma com os cartões de crédito Visa e Mastercard. A compra é de um filme por vez e será liberada à meia-noite e um do dia 21 para o dia 22. Quase todos os filmes já poderão ser adquiridos no primeiro dia. Alguns só entram na segunda semana. A partir da data da compra, você tem 3 dias pra dar o play e, a partir do momento em que começa a ver o filme, tem 24 horas para terminar de assisti-lo. O longa “Casa de Antiguidades” vai ser exibido exclusivamente no Belas a la Carte. A compra deste filme será nesta plataforma pelo mesmo valor. Não é preciso ser assinante. Quinze filmes podem ser vistos gratuitamente na plataforma Sesc Digital e outros quinze serão disponibilizados também de graça no SP Cine Play.

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