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Dezesseis Primaveras ★★★
Seize Printemps, Suzanne Lindon, 2020

É bem interessante perceber como Suzanne Lindon se coloca neste projeto. Não apenas por escrever, dirigir e estrelar “Dezesseis Primaveras“, mas por buscar um caminho próprio, alheio a modismos e tendências. Certamente, esta sua estreia é um filme de “outra época“, sem qualquer conexão com o que se debate ou com o cinema que é feito na França hoje em dia. A jovem cineasta, de apenas 20 anos, desfila suas referências tanto literalmente, com um poster de “Aos Nossos Amores”, de Maurice Pialat, pendurado no quarto da personagem quanto na liberdade com que conduz esse coming of age sobre o primeiro amor, a relação de uma adolescente com um homem mais velho. Diferentemente das histórias de amor proibido, a diretora, filha dos atores Vincent Lindon e Sandrine Kiberlain, prefere a leveza para lidar com as questões que levanta. É o que dá mais personalidade, mas também o aspecto mais frágil do projeto. Talvez pela própria imaturidade, Lindon não consegue aprofundar qualquer discussão, parece sempre flutuar pelos temas de forma ingênua, embora sempre simpática.

Fábulas Ruins ★★½
Favolacce, Fabio & Damiano D’Innocenzo, 2020

É curioso que justamente o roteiro de “Fábulas Ruins“ tenha sido premiado no Festival de Berlim deste ano porque ironia que o filme apresenta desde a primeira cena muitas vezes parece entrar em conflito com tom fatalista que o projeto vai assumindo à medida que avança. Os irmãos Fabio & Damiano D’Innocenzo, roteiristas de “Dogman”, lançam um olhar “ridículo” para o ambiente violento, de costumes machistas e modelo patriarcal que eles enxergam na vida doméstica, aqui simbolizada por uma vizinhança estilizada onde crianças são protagonistas de pequenos contos de pessimismo e perversidade. A dupla parece querer denunciar esse universo tóxico onde a brutalidade e uma certa selvageria domesticada imperam, mas a maneira como os irmãos utilizam o humor negro deixa claro que pouco interessa o destino daqueles personagens, sempre observados por um prisma jocoso. Ao que tudo indica, vale mais a costura narrativa, o uso dessas figuras de linguagem para articular um discurso, o que eles definitivamente têm habilidade para fazer, mas será que essa intenção não é engolida pelos caminhos escolhidos?

Jantar na América ★★★
Dinner in America, Adam Rehmeier, 2020

Embora adote a anarquia como modelo de discurso para a observação crítica de uma classe média pasteurizada, “Jantar na América” tem uma estrutura que serve de pilar para esse suposto caos: três cenas em que os personagens se reúnem à mesa para comer em três casas com famílias distintas. O momento da refeição, no filme de Adam Carter Rehmeier, é o da farsa absoluta, onde a falência do sonho americano aparece mais visível e os rituais de convivência se revelam vazios e protocolares. O diretor parece vender seu filme pelo suposto caos que registra, seja se filiando a cinemas independentes de narrativa mais livre ou a comédias absurdas feitas para o gosto popular. É um caminho arriscado que talvez não encontre seu público já que, deliberadamente, aposta na bagunça destes conceitos. O humor demente, principalmente na personagem de Emily Skeggs, nem sempre funciona tão bem, mas permite uma liberdade rara especular sobre a estrutura social. Sem abandonar a comédia teen, o filme tenta negociar o tempo todo seu estilo com o conceito de “filme de festival” (estreou em Sundance), o que é um tanto cansativo, mas ao mesmo tempo parece instigante observar um autor que, dentro do cinema narrativo americano, não quer facilitar as coisas.

O Livro dos Prazeres ★★★
idem, Marcela Lordy, 2020

Simone Spoladore é uma das grandes atrizes brasileiras e está especialmente bem na composição de uma personagem que busca se libertar da repressão de uma família tradicional, mas que não sabe se relacionar com os outros sem repetir os comportamentos castradores que aprendeu. A principal conquista de Marcela Lordy, em sua estreia num longa-metragem, é evitar o tom solene e a armadilha de tentar fazer uma adaptação literal de “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres“, de Clarice Lispector. Ao decidir apostar mais na essência do texto e nos elementos abordados pela escritora, a diretora consegue a liberdade necessária para discutir as questões que a obra carrega sem a referência que poderia aprisioná-la. Nesse sentido, o filme cria um curioso paralelo reverso à postura da própria personagem, aquela que renega para criar uma identidade própria, mas não é capaz de se livrar de sua herança. Spoladore tem uma presença muito forte, sobretudo quando está sozinha em cena. Seus silêncios e olhares são definidores para que o retrato íntimo desta personagem para qual o prazer é um caminho para a liberdade pareça genuíno espontâneo.

O Nariz ou A Conspiração dos Dissidentes ★★★½
Nos Ili Zagovor Netakikh, Andrey Khrzhanovsky, 2020

Uma fantasia do absurdo para falar do absurdo da vida real. “O Nariz ou a Conspiração dos Dissidentes” é um filme que se revela aos poucos. Utilizando diversas técnicas de animação, combinadas a imagens de arquivo e trechos de obras russas clássicas, num grau de sofisticação pouco visto no gênero hoje em dia, o diretor Andrey Khrzhanovsky parte de uma adaptação da sátira nonsense de Nicolai Gogol, “O Nariz”, e de sua versão para a ópera para confeccionar um painel sobre a história da Rússia na primeira metade do século XX. Aos poucos, personagens, artistas, obras e fatos históricos vão se encadeando numa reflexão, que nunca deixa de abrigar o humor, mas que denuncia o período autoritário do governo soviético sob a batuta de Josef Stalin. É um filme a que se retornar algumas vezes para que suas muitas referências fiquem mais visíveis porque o diretor claramente está interessado em passar a história e a história da arte a limpo. Nesse contexto, a música conduz os próprios movimentos da narrativa, que em determinado momento deixa de ser apenas uma história sarcástica para virar um comentário duro e um lamento sensível sobre os horrores a que uma nação pode condenar seus filhos.

Panquiaco ★★★½
Panquiaco, Ana Elena Tejera, 2020

É possível afirmar que “Panquiaco” é filiado a uma tendência observada hoje em dia em jovens cineastas do mundo todo. Diretores que pretendem investigar suas próprias identidades culturais a partir de uma experiência ou de um conjunto de experiências sensoriais. O filme começa no Porto, em Portugal, onde, há anos, o panamenho Cebaldo encontrou trabalho e sustento como pescador, mas o protagonista vive sob o fantasma da distância de sua família e cultura. A cineasta Ana Elena Tejera estabelece com o personagem uma reflexão sobre desenraizamento que é simbolizada — e radicalizada — por uma ruptura narrativa que, numa espécie de viagem espiritual-histórico-sensorial, permite que Cebaldo embarque numa jornada se resgate de sua ancestralidade. É um filme complexo apesar de ser realizado sem afetação, com um desejo de simplicidade, mas com um cuidadoso senso de estética. A diretora afirma aqui não tem nenhum interesse e eleger um gênero e seu filme realmente flutua entre o documentário, a ficção, o ensaio poético. Seu rigor aparece pontualmente quando Tejera introduz informações históricas a essa experiência em que a herança identitária assume um aspecto físico e ritualístico.

Shirley ★★½
idem, Josephine Decker, 2020

Elisabeth Moss deve ser o terror dos colegas. Basta surgir em cena para que todos os holofotes se voltem pra ela. É um ímã, com suas interpretações geralmente muito potentes e cheias de camadas. Embora a personagem que encontre aqui, a escritora Shirley Jackson, autora de “A Maldição da Residência Hill“, seja banhada na caricatura, Moss encontra um caminho para trabalhar a obviedade. E continua magnética. É por isso que seu duelo com Odessa Young, que interpreta sua rival e algoz, parece tão desequilibrado. É impossível acreditar nos rumos das duas personagens aqui quando há uma diferença tão visível entre as interpretações das atrizes. Mesmo assim, “Shirley“ é um filme curioso. Josephine Decker abusa se alguns maneirismos visuais, mas eles ajudam a estabelecer um atmosfera ao mesmo tempo angustiante e descontrolada, que retrata tanto a tendência ao caótico da personagem-título quanto serve para traduzir o jogo de dominação que vem em seguida. No entanto, a diretora parece tão encantada pela possibilidade de trabalhar com Moss que deixa de desenvolver nuances e aposta no esquemático. É uma pena porque Jackson parece ser uma personagem muito rica. O filme vira uma espécie de thriller psicológico com uma alma de filme B, mas com certa pompa de obra de época, aquele gesso comum a biografias no cinema, o que impede que ele seja tão particular quanto Decker pretende.

(+)

Lista com todos os filmes que vi na Mostra de 2020 comentados aqui no blog.

Lista com todo os filmes da seleção já vistos no Letterboxd.

Informações básicas: a 44ª Mostra de Cinema de São Paulo acontece online a partir de 22 de outubro e vai até dia 4 de novembro. As informações detalhas sobre o evento e sobre cada produção exibida estão no site da Mostra. A maior parte dos filmes será exibida na plataforma Mostra Play, criada para o evento. Cada filme vai custar R$ 6 e pode ser comprado na própria plataforma com os cartões de crédito Visa e Mastercard. A compra é de um filme por vez e será liberada à meia-noite e um do dia 21 para o dia 22. Quase todos os filmes já poderão ser adquiridos no primeiro dia. Alguns só entram na segunda semana. A partir da data da compra, você tem 3 dias pra dar o play e, a partir do momento em que começa a ver o filme, tem 24 horas para terminar de assisti-lo. O longa “Casa de Antiguidades” vai ser exibido exclusivamente no Belas a la Carte. A compra deste filme será nesta plataforma pelo mesmo valor. Não é preciso ser assinante. Quinze filmes podem ser vistos gratuitamente na plataforma Sesc Digital e outros quinze serão disponibilizados também de graça no SP Cine Play.

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