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Sobre a natureza das coisas

O longa-metragem “Cavalo”, dirigido pelos cineastas Raphael Barbosa e Werner Sales, é considerado um filme híbrido, com narrativa que mistura documentário e ficção, numa linguagem poética tão fluida quanto as águas que banham Alagoas. O elenco jovem e negro traduz, com o corpo, uma potência que impacta aos desavisados que, como eu, não esperava uma reação tão física como espectador. Sou jornalista. Li com atenção os dados divulgados pelo Atlas da Violência 2020, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), há poucos dias. Alagoas continua com taxa crescente de homicídios e os alvos são preferencialmente jovens, negros, pobres e periféricos.

O filme inquieta, perturba o sono. Tudo o que vi na tela retrata mais que o hibridismo proposto entre fantasia e realidade. O roteiro explora nossa questão mais profunda: por que viramos as costas para lagoas e mangues, para os terrenos alagados que estão, literalmente, na raiz do nosso nome? Por que negamos nossa miscigenada vocação para a liberdade, que os palmarinos ecoaram ainda no século XVII? Por que abraçamos, como parte considerável do Brasil, uma história contada pela minoria branca que já vendeu açúcar produzido com mão de obra escrava e hoje vende sol e mar? São muitas questões, quase todas com respostas em aberto.

Quando escreveu Canais e Lagoas, Octávio Brandão tinha pouco mais de 20 anos. Vagando sedento por nossos tabuleiros e vales, tomou água contaminada numa vereda do Poço Azul e contraiu a febre terçã. Assim como ele, pesquisadores das mais diversas áreas apontam que a alma forjada no mangue é nossa identidade e resistência. Ancestralidade anfíbia, lendários matamorfos, metade-gente-metade-cavalo (ou qualquer outro bicho que represente força e ambivalência). O barro, o mito fundador, a religião afro-brasileira, o respeito aos ritos de iniciação. O som e o silêncio. Tudo fazendo sentido.

Já passam das três da manhã. No quarto escuro revejo cenas minuciosamente captadas. Uma fotografia desenhada pela luz do nosso amanhecer, entardecer, anoitecer. O pulso da água. Alagoas é o segundo menor estado do Brasil em extensão, mas é banhado pelo Atlântico e pelo Rio São Francisco em suas bordas leste e oeste. Os alagadiços que circundam a capital e parte de sua região metropolitana produzem um barro reluzente e um manguezal espesso onde habitam peixes, caranguejos, sururus. Fontes de sobrevivência e de poesia. Lembra de Lêdo Ivo? Então…

A dança que costura o filme “Cavalo” mimetiza o movimento dessa água, desse aguaceiro, desse terreno movediço. A atriz-personagem-deusa chama a atenção dos dançarinos para a importância do chão. O orixá também é pé na terra. E o telúrico ecoa. O ritmo do trote do cavalo. A forma como homens e mulheres incorporam as divindades e transitam nos rituais sincréticos de uma terra que calou seus terreiros, no começo do século XX. A terra “do quebra”, onde o xangô precisou ser rezado baixo.

A vigília me faz perder o foco. Adormeço. Cedo, releio o que escrevi no celular e resolvo não cortar absolutamente nada. Não seria fiel aos sentimentos. Ao impacto, arrebatamento. Lembro que não mencionei a zona da mata, o agreste, o sertão. Mas todas as regiões estão presentes na paleta de cores, no sol e na chuva que brotam durante a experiência de ver o filme com os olhos abertos e o coração atento.

A música. Os atores e atrizes. Os amigos que reconheço nos dois preparadores de elenco, que surgem nas cenas como lampejos de outros tempos, minha memória. Somos bem-aventurados. Durante os afazeres do dia aparecem outras referências de arte alagoana, O Peixe, de Jonathas de Andrade; os escritos de Dirceu Lindoso; a Baleia do Graciliano; o Grande Poder, do Mestre Verdelinho; as cores de Delson Uchôa… me perco.

Logo depois me acho, na labuta diária, imaginando uma outra terra possível. Volto a digitar os números do IPEA, mas dessa vez ouvindo um rap periférico produzido nas grotas. Ainda sonhando acordado com as imagens de uma Alagoas contemporânea, onde as trágicas manchetes convivem com uma produção audiovisual capaz de conquistar o mundo. Com sotaque próprio, sem pegar carona em qualquer outro polo de produção. É cinema que já escuta nomes como Werner, Raphael, Ulisses, Nilton, Laís, Leandro e tantos outros. É o imaginário na tela, na cena, abrindo espaço para a nossa arte e para os nossos artistas. Que assim seja.

por Guilherme Lamenha

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“Cavalo” é o primeiro longa-metragem realizado em Alagoas em cerca em quase 40 anos. O filme estreou no começo de 2020 na Mostra Tiradentes e depois foi exibido em festivais online como o Ecrã e o Olhar de Cinema. Como complemento ao belo texto do Guilherme, escrevi sobre o filme aqui.

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