[mostra de cinema de são paulo – boletim nove]

[o cheiro do ralo ]
direção: Heitor Dhalia.

O Cheiro do Ralo, 2006. Espero que a cotação não desanime ninguém de ver o filme porque ele merece ser visto. Primeiro, é um filme muito melhor do que Nina, a estréia fraquinha do diretor que transformou Dostoiévski em plástico modernete. Há uma parcimônia muito maior em toda a concepção técnica, tão exagerada no filme anterior: a direção de arte é acertadíssima. A relação do protagonista com a memória de seu pai é muito boa. No entanto, o texto é desequilibrado, com alguns momentos brilhantes, como a cena em que Lourenço não reconhece a nova garçonete ou quando ele finalmente consegue comprar seu maior objeto de desejo (cena que uma platéia ou despreparada ou nervosa achou muito engraçada), mas há momentos toscos em que o filme parece estar à sombra da literatura pulp americana, como em qualquer cena no banheiro. E o excesso de gracinhas com os coadjuvantes incomoda.

Com Selton Mello, Silvia Lourenço, Flavio Bauraqui, Alice Braga, Milhem Cortaz, Dionísio Neto, Abrahão Farc.

[edmond ]
direção: Stuart Gordon.

Edmond, 2005. Acho que foi o pior David Mamet que eu vi na vida. As reflexões filosóficas soam artificiais o tempo inteiro e eu não consegui comprar o protagonista desde a discussão entre o casal, apesar da visível dedicação do William H. Macy. O elenco feminino está muito bem, com um destaque especial para Mena Suvari, linda e excelente em cena, mas a beleza das meninas não esconde a falta de tato tanto na transposição do texto de uma peça para o cinema (o filme tem cacoetes de palco ao longo de toda sua duração) e na própria fragilidade deste texto, que culmina numa espécie de Um Dia de Fúria mais under, com um final bastante clichê.

Com William H. Macy, Julia Stiles, Mena Suvari, Bai Ling, Joe Mantegna, Denise Richards, Rebecca Pidgeon.

[cabíria ]
direção: Giovanni Pastrone.

Cabiria, 1914. Realmente impressionante não apenas a dimensão, como a extrema eficácia em coordenar todo o espetáculo com direito a bastante invenção, como a utilização dos avós dos trilhos cinematográficos, a noção de posicionamento de atores e as truncagens. Os cenários gigantescos são tão bonitos quanto os de Intolerância, do Griffith, e emprestam a imponência que o filme exige. O acompanhamento musical ao vivo, cortesia do maestro Stefano Maccagno, foi uma experiência instigante. Pena que ainda tenha tanta gente que não esteja preparado para ir ver um filme mudo, de 1914, de três horas, e não saiba se comportar no cinema. Quem chamou?

Com Lydia Quaranta, Teresa Marangoni,Dante Testa, Umberto Mozzato, Bartolomeo Pagano.

[shakespeare mudo ]

[rei joão (Grã-Bretanha, 1899) ]
direção: William-Kennedy Laurie Dickson.
[a tempestade (Grã-Bretanha, 1908) ]
direção: Percy Stow.
[sonhos de uma noite de verão (EUA, 1909) ]
direção: J. Stuart Blackton e Charles Kent.
[rei lear (Itália, 1910) ]
direção: Gerolamo Lo Savio.
[noite de reis (EUA, 1910) ]
direção: Charles Kent.
[o mercador de veneza (Itália, 1910) ]
direção: Gerolamo Lo Savio.
[ricardo III (Grã-Bretanha, 1911) ]
direção: F.R. Benson.

O resgate histórico é talvez mais importante do que os próprios filmes, já que alguns são bastante rústicos, como Rei João, que tem apenas uma cena (ou de que só restou uma cena) ou os fraquinhos O Mercador de Veneza e Ricardo III, este praticamente teatro filmado. Mas há filmes bem bons, como Rei Lear, que já anunciava a pintura à mão quadro a quadro da película, um filme todo em locação, o delicioso Sonho de uma Noite de Verão, com um humor inspirado, e o melhor de todos, A Tempestade, cheio de truncagens, efeitos, recortes, sobreposições. Filme de gente que sabia que o cinema era outra coisa.

Comentários

comentários

Um pensamento sobre “[mostra de cinema de são paulo – boletim 9]”

  1. Esse Percy Stow filmou pra cacete, mas morreu ainda meio novo, em 1919… Parece que este é o mais famoso dele.

    Não tinha me tocado de que você tinha detestado tanto o “Edmond”. Acho tanto o “Heist” quanto o “Spartan” são piores (lembrando que aqui ele assina só o roteiro). A reclamação geral tem sido a inverossimilhança da personagem do Macy, mas isto não me atrapalhou porque, apesar de inverossível, ele é plenamente compreensível, inclusive a ponto de gerar um mínimo de identificação, embora se trate de um homem, no mínimo, enganado. Acho o filme muito mais próximo de “Taxi Driver” do que de “Um Dia de Fúria”. Mas o ato final (onde esses cacoetes de palco ficam evidentes _não os senti anteriormente) é bem mais fraco do que o after hours que o precede, e o final é bem previsível mesmo. Apesar de o filme ser curto, acho que durou mais do que precisava.

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