Mostra SP 2014: post cinco

Leviatã

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[Leviathan, Andrei Zvyagintsev, 2014]

A gigantesca carcaça do Leviatã ainda assombra um vilarejo russo onde tudo parece estar fadado ao fracasso. O monstro marinho, descrito no Antigo Testamento, é a alegoria escolhida pelo cineasta Andrei Zvyagintsev para escancarar seu pessimismo em relação a seu país, um estado de descrença que persegue e se transforma em principal temática de seu cinema. Para o diretor, a corrupção se instalou na coração da Rússia e se espalhou como metástase pela política, pela justiça, pela igreja e pela moral. Um exército cruel e onipresente que cerca e atropela os elementos dissonantes. O novo filme do cineasta é como uma profecia bíblica que não guarda muita salvação para seus protagonistas. Nikolay enfrenta o prefeito da cidade, que quer tomar suas terras a qualquer custo. Sua recusa em ceder inicia uma série de tragédias. Zvyagintsev administra essas tragédias com certas doses de fatalismo, mas parece justificar a escala que utiliza para o desastre a cada entrelinha. Os capitães do mal mudam de nome, mas permanecem no poder. O diretor não poupa nenhum deles de suas culpas e ainda convida o espectador a acertá-los com um tiro de espingarda, mas ironicamente preserva quem aqueles ainda não foram condenados pela “história”, mas estão presentes em cada parede.

Pássaro Branco na Nevasca

Pássaro Branco na Nevasca EstrelinhaEstrelinha
[White Bird in a Blizzard, Gregg Araki, 2014]

O novo filme do outsider Gregg Araki tem menos bizarrices do que os trabalhos anteriores do cineasta – quer dizer, melhor você chegar antes ao final deste aqui, sobre o desaparecimento de uma mulher, que aparentemente abandona o marido e a filha numa cidade do interior. O longa é estrelado por Shailene Woodley, do ótimo Os Descendentes, que está no auge da beleza. Durante boa parte do filme, Araki mantém seus maneirismos indies em favor de criar um ambiente delicado para explorar os dilemas da adolescente. A trilha sonora assinada por Robin Guthrie, um dos fundadores do Cocteau Twins, dá um diferencial. Oito das doze faixas compostas para o filme são de autoria dele e remetem diretamente à sonoridade de seu grupo de origem. De bônus, ainda ouvimos “Dazzle”, do Siouxise and the Banshees. O problema é que o universo que o diretor consegue criar enfraquece gradativamente à medida que a trama cobra o fim do mistério.

A Vida Pode Ser

A Vida Pode Ser EstrelinhaEstrelinha
[Life May Be, Mania Akbari & Mark Cousins, 2014]

A iraniana Mania Akbari, atriz de Dez, de Abbas Kiarostami, e também cineasta, faz, neste filme, uma espécie de troca de correspondências com o crítico e documentarista Mark Cousins, autor do excelente livro História do Cinema, que também virou série de TV. A cada troca de mensagens, os dois divagam sobre temas importantes e complexos como o exílio, o mundo de hoje e os cinema. Mas a combinação de seus estilos diferentes, que prometia produzir um cinema simples e sincero, sempre disposto a refletir sobre a existência, cai num espiral de onde não consegue sair. O resultado é uma intenção quase sempre forçada de fazer poesia, ora com imagens parecem ter sido escolhidas a dedo – no Google -, ora com um texto que não se acerta nunca, passando do “visceral”, com Akbari falando sobre sexo, ao pretensamente delicado.

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