Minha Amiga Victoria

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[Mon Amie Victoria, Jean-Paul Civeyrac, 2014]

A vida de Victoria não tem capítulos diferentes da história de qualquer pessoa. Encontros, reencontros, despedidas. Maridos, namorados, filhos. Em determinada cena do filme, a amiga da protagonista diz que ainda vai escrever um livro sobre ela. E ouve: “minha vida não tem nada demais”. A personagem principal da novela de Doris Lessing é uma mulher comum, mas que no lápis da escritora e sob a direção peculiar de Jean-Paul Civeyrac ganha ares de heroína da vida real. Mas o cineasta envolve cada momento da história da personagem com uma embalagem delicada que torna especiais situações banais para qualquer um. Este tom raro reformula as questões étnicas que podem surgir do fato da protagonista negra ter um filho de um pai branco de uma espécie de esquerda caviar francesa. Civeyrac evita qualquer tipo de maniqueísmo e Victoria chega a ser simples de tão complexa, de tão real.

Retorno a Ítaca

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[Retour à Ithaque, Laurent Cantet, 2014]

Diretor de filmes excepcionais como A Agenda e Entre os Muros da Escola, Laurent Cantet pousou em Cuba para fazer o típico filme sobre o reencontro de velhos amigos. À primeira vista, o filme tem a agilidade e a cadência de uma rumba, apresentando as personagens em pequenos goles, fazendo observações bem conscientes e independentes sobre liberdade e política no país, envolvendo o espectador com aquele encontro de histórias. Havana é filmada de maneira documental do topo do edifício onde mora um dos cinco protagonistas e a cidade invade as conversas, brincadeiras e danças do grupo de uma maneira natural e cheia de vitalidade como poucos diretores conseguem fazer. A questão é que, a partir de determinado ponto, os inevitáveis conflitos entre as personagem afloram no melhor estilo do gênero e a roupa suja é lavada ali na laje mesmo, com direito a pelo menos uma “grande revelação”, que atropela muito o ritmo e a fluidez do filme.

Obra

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[Obra, Gregório Graziosi, 2014]

A estreia de Gregório Graziosi em longas-metragens faz uma válida tentativa de incorporar a cidade a sua forma e a sua narrativa. São Paulo e seu subsolo mais profundo parecem ser os verdadeiros protagonistas de Obra, um filme que assume a arquitetura, profissão do personagem de Irandhir Santos, não apenas para a plástica, mas para a própria estrutura do filme. Rodado num preto-e-branco que ora impressiona pelos enquadramentos, ora parece artificializar demais algumas cenas, o longa trabalha com o conceito de arquitetura em vários níveis. Ousado, mas nem sempre funciona. Primeiro temos um homem que encontra na base de uma obra que comanda num terreno de sua família rica um segredo que muda a maneira como ele enxerga seus ancestrais. Este mesmo homem sofre com uma hérnia de disco, problema que se agrava à medida em que escava o passado de seus parentes. Graziosi utiliza esses trocadilhos não ditos de uma forma bem interessante para amarrar a proposta de seu longa, mas o filme peca por embutir demais a frieza e a assepsia desse mesmo conceito em sua espinha dorsal. No entanto, o problema maior talvez nem seja este, mas o casting de Irandhir Santos. O ator é um dos melhores que surgiram no Brasil nos últimos anos, mas fica difícil acreditar nele como um paulistano coxinha quando não se percebe o mínimo esforço para transformar seu sotaque. O estranhamento pode até ter sido proposital, mas não ajuda a sustentar essa obra.

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