As Noites Brancas do Carteiro

As Noites Brancas do Carteiro EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Belye Nochi Pochtalona Alekseya Tryapitsyna, Andrei Konchalovsky, 2014]

A câmera de Andrei Konchalovsky segue o carteiro de uma vila no norte da Rússia, onde boa parte dos moradores sobrevive de pensões por terem sido militares. O diretor, mais uma vez, usa atores amadores para interpretar a si mesmos num roteiro ficcional, mas inspirado em suas próprias vidas. O resultado dá cor à melancolia das personagens, que parecem bem à vontade ao encenar suas rotinas. Cada cena é filmada num longo take único em que a câmera tenta ficar o mais invisível possível para que o “elenco” evolua com naturalidade. Konchalovsky mistura as imagens documentais que captura do interior das casas dos protagonistas com as cenas “roteirizadas”, costurando uma narrativa brejeira que faz o espectador mergulhar numa Rússia que sobrevive dos cacos do passado ao mesmo tempo em que é condenada por este mesmo passado. A curva é sutil e transforma As Noites Brancas do Carteiro num programa duplo dos mais provocadores com Leviatã, de Andrei Zvyagintsev.

Nabat

Nabat EstrelinhaEstrelinha½
[Nabat, Elchin Musaoglu, 2014]

Anos 90, Azerbaidjão. A vila em cujos arredores Nabat mora com o marido doente está no meio de um conflito territorial. O casal já perdeu o filho na guerra e a rotina da mulher, de caminhar sozinha até a cidade para vender o leite que sua única vaca produz, é interrompida quando ela percebe que a população abandonou o lugar. De repente, a protagonista vaga por aquelas ruas de pedra sem os encontros que enchem seu dia-a-dia e faz o que pode para manter acesa o que lhe resta de esperança. Desse ritual cíclico de solidão, o cineasta Elchin Musaoglu consegue extrair uma boa dose de lirismo com a ajuda de sua atriz principal, Fatemeh Motamed Arya, que cria uma personagem talhada pela brutalidade da vida. Mas a tristeza genuína de Nabat ganha um maniqueísmo incômodo depois que sua nova rotina fica clara para o espectador. Musaoglu acerta na construção da relação de Nabat com a loba, mas a trilha sonora e a imagem final da protagonista parecem exigir do espectador lágrimas que ele já pode até ter entregado de graça.

O Medo

O Medo Estrelinha½
[La Por, Jordi Cadena, 2014]

A construção que Jordi Cadena impõe para seu filme, um suspense psicológico que guarda sempre seu vilão sob uma névoa sufocante, é interessante para apresentar os protagonistas, mas tem uns pecados que me parecem imperdoáveis. O fatalismo do filme não dá qualquer chance para entendermos o personagem do pai e suas motivações. O tom, sempre acima, nos incita a ter pena do restante do elenco apenas com a insinuação do que acontece dentro daquela casa. O uso do silêncio para construir a narrativa é um ponto forte, mas esse mesmo silêncio vira um maneirismo para que o diretor modele suas intenções. A metáfora gratuita na cena da aula de ciências parece pura preguiça do roteiro, assim como as cenas no cemitério. Por fim, o desfecho de O Medo, com direito a uma fala irônica de muito mau gosto, parece apenas guardar o choque final para cooptar quem está do outro lado da tela.

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