“Eu sou nordestino. E a coisa que o nordestino mais faz é trocar o certo pelo duvidoso”. A frase que Severino do Quixadá, papel de Renato Aragão, fala para a Fada Bruxa interpretada por Bruna Lombardi em O Cangaceiro Trapalhão, lançado há exatos 30 anos, é um exemplo de como os filmes do maior grupo do humor nacional traziam, em maior ou menor grau, uma observação sobre a situação econômica do homem brasileiro. E, coincidentemente, é justamente no Nordeste onde os melhores filmes de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias se passam. Entre cangaceiros e saltimbancos, vagabundos e garimpeiros, os Trapalhões ajudaram a formar gerações de brasileiros, lotar cinemas e fazer milhões de crianças pararem em frente à televisão. Listo aqui meus filmes favoritos desta trupe que se confunde não só com a minha, mas com a infância de um país.

Os Trapalhões na Guerra dos Planetas

10 Os Trapalhões na Guerra dos Planetas EstrelinhaEstrelinha½
[Adriano Stuart, 1978]

Um dos filmes mais cara-de-pau da história do cinema brasileiro, Os Trapalhões na Guerra dos Planetas é uma cópia descarada de Guerra nas Estrelas, que suga o visual de personagens como Darth Vader, Luke Skywalker e Chewbacca para uma história sobre um príncipe – vivido pelo carioca Pedro Aguinaga, eleito à época o homem mais bonito do Brasil – que vem buscar ajuda na Terra para enfrentar inimigos em seu planeta natal. Foi um dos cinco filmes do quarteto dirigido por Adriano Stuart. Os efeitos visuais e a direção de arte são mais do que precários, o que deu ao filme uma aura cult -trash que atravessou fronteiras como o Brazilian Star Wars. Talvez por precariedade o filme tem várias cenas sem diálogos. Cenas longas que ora são de luta, ora de dança, ora cenas quaisquer, onde a trilha sonora eletrônica a la Giorgio Moroder faz às vezes de narradora da história, criando alguns momentos hipnóticos que tornam o filme bem mais interessante do que ele realmente é. Seguindo a proposta, a apresentadora Christina Rocha faz uma participação, entrando muda e saindo calada.

O Trapalhão no Planalto dos Macacos

9 O Trapalhão no Planalto dos Macacos EstrelinhaEstrelinha½
[J. B. Tanko, 1976]

Por um lado, mais elaborado do que Guerra do Planetas, por outro, menos ambicioso. No meio disso tudo, mais uma cópia sem vergonha de um grande sucesso do cinema americano (aliás, de dois porque a sequência inicial é uma brincadeira – deliciosa, diga-se – em cima do Tubarão de Steven Spielberg) . Mas aqui pelo menos há uma tentativa de contextualizar a trama na realidade brasileira. Os personagens de Renato Aragão e Dedé Santana são confundidos com ladrões e, junto com o guarda  que os persegue, vivido por Mussum, em sua estreia num filme do grupo, entram num balão que vai terminar num mundo dominado por macacos. Os figurinos e maquiagem de qualidade discutível dão ao filme um tom artesanal que funciona muito para que os Trapalhões desfilem suas gags e que emprestou certa fama internacional de filme trash ao longa e o transformou em cult.

O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão

8 O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[J. B. Tanko, 1977]

A maior bilheteria dos Trapalhões ainda não tinha a presença do mineiro Zacarias, mas já dizia muito de como o grupo operava em conjunto. A trama parte de pequenos golpes aplicados pelos três protagonistas, que simulavam lutas para ganhar dinheiro com apostas. Num só pacote, os Trapalhões refletiam o “jeitinho brasileiro” enquanto falavam sobre a situação econômica que forçaria a população a arrumar uma maneira de sobreviver, o que viria a ser uma das linhas fundamentais do humor do grupo. O que vem a seguir é mais uma das adaptações que o grupo fazia de histórias e personagens lendários, mais simples, mas com alguns momentos deliciosos, como todas as cenas em que o trio encontra a bruxa interpretada por Vera Setta que atormentou os sonhos de uma geração.

O Cinderelo Trapalhão

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[O Cinderelo Trapalhão, Adriano Stuart, 1979]

A cena final é um clássico da Sessão da Tarde: cada trapalhão recebe uma porção de terras por ter salvo a fazenda do mocinho do filme, mas Cinderelo, papel de Renato, fica com a menor delas. Quando ele resolve cavar no pequeno cercado para enterrar a sujeira de seu bode Gumercindo, descobre petróleo. Todos comemoram e o filme termina com a imagem congelada dos Trapalhões, pulando de alegria. É o fim de uma história em que os Trapalhões cutucam a sociedade feudal brasileira, que oprime a classe trabalhadora através da força. Há uma série de cenas engraçadíssimas, principalmente quando Renato Aragão se passa por um príncipe árabe e Dedé finge ser um mexicano. Dino Santana, irmão de Dedé, protagoniza junto com ele uma cena acrobática de luta sensacional.

Os Trapalhões na Serra Pelada

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[J. B. Tanko, 1982]

Primeiro filme dos Trapalhões que eu vi no cinema e, possivelmente, meu primeiro filme no cinema, é um longa irregular, que começa muito bem, explorando um tema essencial ao Brasil da época, o garimpo, mostrando que o quarteto estava interessado em acompanhar a história. O filme equilibra uma das melhores trilhas sonoras dos filmes do grupo com um retrato interessante da vida no formigueiro humano, mas o roteiro varia para uma aventura mais ordinária, que apesar de manter o universo do poder no garimpo, prioriza cenas de luta longas e, em muitas vezes, protagonizadas pelo Exército, o que dá um tom oficialesco ao filme e deixa o terço final bem inferior ao restante. A música se sobressai ao conjunto: “Procurei Teresa”, cantada por Didi e Dedé, e “Perdi Minha Nega num Forró”, na maravilhosa interpretação de Zacarias (as duas em sequência com participação de Sivuca e de um coral feminino) são geniais.

Os Vagabundos Trapalhões

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[J. B. Tanko, 1982]

Fortemente inspirado pelo Vagabundo de Charles Chaplin, Renato Aragão volta a batizar um personagem seu que vive nas ruas como Bonga (o outro era o protagonista de Bonga, o Vagabundo, quando ainda nem havia Os Trapalhões). O resultado, nas mãos de J.B. Tanko, é de um lirismo popular impressionante, reforçado pela trilha coescrita por Aragão. O tema principal, na versão instrumental que abre e fecha o filme ou na cantada por Jessé, é belíssimo e ajuda a dar o tom melancólico do filme, embalando algumas das cenas mais comoventes da história do quarteto. Louise Cardoso, bem jovem, está linda e é uma das poucas mocinhas que terminam com um personagem de Aragão, embora ele tenha se interessado mesmo por Denise Dumont. Fabio Villa Verde e a Narizinho Isabela Bicalho estão entre as crianças da história.

O Cangaceiro Trapalhão

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[Daniel Filho, 1983]

Este é provavelmente o longa mais bem dirigido na filmografia dos Trapalhões, que aqui revisitam um gênero tipicamente brasileiro, o do filme sobre o cangaço. Na sequência inicial da emboscada na cidade, Daniel Filho mostra suas qualidades como cineasta, orquestrando atores e câmeras em cima dos telhados, abusando de gruas e buscando os ângulos mais inteligentes que já enquadraram o quarteto. É também o filme que tem as melhores interpretações de atores convidados pelo grupo, com destaque absoluto para Nelson Xavier como Lampião e Tânia Alves no papel de Maria Bonita. Tânia, por sinal, dá voz a uma das músicas do filme, mais uma bela trilha assinada por Guto Graça Mello. Mas o melhor momento musical é a antológica “Lagartixa”, de Rita Lee, que embala o encontro entre Severino do Quixadá (Renato Aragão) e a Fada Bruxa de Bruna Lombardi. Os diálogos, bem acima da média dos filmes do grupo, são creditados ao grande Chico Anysio. Regina Duarte, naquele que é provavelmente seu único sucesso no cinema, é a mocinha.

O Casamento dos Trapalhões

3 Os Trapalhões e o Mágico de Oróz EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Dedé Santana & Victor Lustosa, 1984]

Este foi o filme que reuniu os Trapalhões depois de uma separação de seis meses. A direção foi entregue a Dedé Santana, que dividiu o trabalho com Victor Lustosa. O resultado é uma surpreendente mistura entre a fantasia de O Mágico de Oz com uma aguçada crítica social, em que o quarteto representa o povo nordestino que luta pela vida em plena seca do Sertão. As músicas de Arnaud Rodrigues, no mesmo esquema do filme de Victor Fleming, ajudam a estabelecer o elo tanto com a fábula quanto com o caráter político da história. É um dos filmes mais sérios do grupo, embora tenha espaço farto para as gags e trocadilhos dos quatro, e tem um dos roteiros mais redondos dos Trapalhões, uma adaptação, inclusive, bem melhor do que a que a Motown fez da história de Oz em 1978. A frase que encerra o filme diz muito sobre sua natureza: “E choveu. Que a chuva que molhou o sofrido chão do Nordeste não esfrie o ânimo de nossas autoridades na procura de soluções para a seca”.

Os Saltimbancos Trapalhões

2 Os Saltimbancos Trapalhões EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[J. B. Tanko, 1981]

O filme-símbolo de uma geração e da carreira dos Trapalhões no cinema, favorito de nove entre dez crianças dos anos 80, só peca por sua edição. A montagem é truncada, não tem muito cuidado com a passagem de som entre as cenas, e os números musicais surgem em bloco, em vez de serem diluídos ao longo do filme. Dito isso, assistir Os Saltimbancos Trapalhões é uma experiência mágica. Renato Aragão queria que esta fosse sua obra-prima e pediu a Chico Buarque para adaptar sua peça para o cinema. Chico não apenas liberou o material (que já era uma versão de um musical italiano), como resolveu assinar o roteiro e escrever músicas inéditas para o longa. Canções belíssimas como “Hollywood” (na voz suave de Lucinha Lins), “Piruetas” e “Alô, Liberdade” levam o universo da luta de poder do original para o mundo do circo, palco perfeito para os quatro palhaços. O humor físico aqui ganha cenas antológicas, como “vou popotizar você”, com um Didi inspirado, ou quando Zacarias e Mussum são perseguidos pelo cachorro Bob. J.B. Tanko equilibra lirismo, aventura e até uma visita psicodélica a um estúdio de cinema numa trama simples sobre como a classe trabalhadora consegue chegar ao poder.

Os Trapalhões no Auto da Compadecida

1 Os Trapalhões no Auto da Compadecida EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Roberto Farias, 1987]

O único encontro entre os Trapalhões e o cineasta Roberto Farias resultou no melhor filme do grupo. Se os outros trabalhos sofriam na montagem e no timing, este aqui, baseado no clássico de Ariano Suassuna, é impecável, quase uma obra-prima, que rivaliza com a versão dirigida em 2000 por Guel Arraes. Renato Aragão interpreta João Grilo e Dedé Santana vive Chicó. Ambos estão inspirados. Farias, que também assina o roteiro, entregou um texto ágil e bastante fiel ao original, que captura o universo cordelístico nordestino, traduz seus personagens e sua natureza. É um filme cheio de sotaque e universal. Zacarias faz o dono do mercadinho, variando sua personagem tradicional, e Mussum rouba a cena como o frade que assume um papel importante na reta final do longa. Suassuna, por sinal, acha que esta foi a melhor adaptação de sua peça. O elenco, com destaque para Claudia Gimenez, José Dumont e Raul Cortez, trabalha com uma afinação difícil de encontrar. A música de Antônio Madureira dá unidade a todos atos, entre eles o ato final, em que o julgamento no céu se transforma num palco de circo, lugar ideal para que os Trapalhões se sintam em casa. Um filme delicioso.

Agora é vez de vocês deixarem nos comentários suas listas de filmes favoritos dos Trapalhões.

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Comentários

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139 comentários sobre “Top 10: melhores filmes dos Trapalhões”

  1. Lembro-me dos filmes antigos dos Trapalhões como O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão, Os Saltimbancos Trapalhões, Os Vagabundos Trapalhões, Os Trapalhões e O Mágico de Oroz, além dos clássicos: O Casamento dos
    Trapalhões e Os Heróis Trapalhões;mas no final da carreira, temos que considerar os filmes: O Trapalhão e a Lua Azul, Simão, o Fantasma Trapalhão, O Noviço Rebelde e o que vai sair brevemente, se Deus quiser: Os Saltimbancos Trapalhões 2 com Dedé e Didi.

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