Tron - Uma Odisseia Eletrônica

O tempo é avassalador. Principalmente no reinado digital. A tecnologia avança com tanta velocidade que estraçalha e devora o que vê pela frente, tornando objetos obsoletos e filmes datados. É assim com Tron – Uma Odisseia Eletrônica, programa obrigatório na Sessão da Tarde de qualquer criança nos anos 80 e que, visto hoje, 28 anos depois, parece uma tentativa tosca de fazer computação gráfica, com um visual que qualquer criança consideraria constrangedor.

Pois bem, vamos falar de crianças. Eu era uma delas quando vi o filme pela primeira vez e, confesso, sempre achei Tron o máximo. Motivos? O protagonista entrava num mundo de computadores com naves espaciais, tinha uma roupa de neon, se transformava numa moto e ainda perseguia uns bandidos bem macabros. Para mim, Tron era absolutamente incrível. Hoje as coisas mudaram.

Rever o filme foi um baque porque, como manda a mãe tecnologia, a revolução visual de Tron ficou para trás. O filme é visualmente agressivo para nossos olhares acostumados a achar de mau gosto tudo o que era produzido cinco anos atrás. Imagina, 28. Foi então que eu comecei a pensar em como produzir esse filme foi uma aventura corajosa. Porque 28 anos atrás, com a computação gráfica engatinhando, já era certo que Tron ficaria velho. Mesmo assim eles não desistiram da ideia.

O filme de Steven Lisberger é um dos maiores precursores da animação por computador que hoje domina o cinema. Ao contrário de James Cameron, que gestou seu Avatar por décadas até acreditar ter a tecnologia necessária para produzi-lo, Lisberger e os estúdios Disney não quiseram se privar do experimento e lançaram Tron quando efeitos visuais ainda eram artigos de luxo em filmes “menores”.

E esse filme “menor”, mesmo com sua história boba, mal escrita, cheia de luagres comuns e ingenuidades, lançou – ou ajudou a consolidar – ideias que hoje são fundamentos da ficção-científica, como as noções de rede virtual, vida digital e avatares. Tron envelheceu, mas foi fundamental para o que veio a seguir. Tudo tem seu tempo. Ou não?

Tron - O Legado

Hoje, o cinema parece ter vergonha de si mesmo, de suas brincadeiras e experimentações. Parece carecer cada vez mais de ideias novas e parte para o mais fácil: a reciclagem. Por isso, a decisão dos estúdios Disney, em plena era dos remakes e reboots que tomam ideias originais para recriar histórias, surpreendem com não uma refilmagem, mas uma continuação de seu filme, 28 anos depois do primeiro longa ter sido um fracasso nos cinemas.

Tron – O Legado tem uma trama igualmente simples e precária, embora muito do universo que o longa original estabeleceu já faça parte de nosso inconsciente coletivo. Seu maior defeito é não oferecer uma perspectiva de futuro, enquanto o filme de Lisberger nos lançava diante de um milhão de novas possibilidades. Estamos diante, mais uma vez, de uma versão totalitária de um mundo estranho onde a ausência do humano instala o caos. Nada de novo.

O diretor Joseph Kosinski, por sinal, rouba várias ideias de muitos clássicos da ficção-científica, sobretudo Guerra nas Estrelas. O Flynn de Jeff Bridges se transforma numa espécie de Obi Wan Kenobi digital, enquanto o bar multirracial de Zuse (Michael Sheen plagiando o Coringa de Heath Ledger da maneira mais gay possível) imita os botecos interplanetários da saga de George Lucas. E ainda há os dilemas pai x filho, homem x máquina e, claro, a interpretação errada da “Força”. Mas o roteiro sabe lidar bem com o pastiche e faz uma piada deliciosa com sabres de luz.

Toda a reprise cansa um pouco, mas não deixa de divertir. O som é excelente, no entanto, o que se torna o maior atrativo do filme é a plástica. A direção de arte, em vez de renegar, reaproveita toda a linguagem visual concebida no filme de 1982, trocando o branco pelo preto e estabelecendo um padrão retrô moderninho de encher os olhos. Os cenários só partem pro mais do mesmo no já citado bar e no espaço zen de Flynn. Os figurinos são extremamente bem resolvidos e podem concorrer ao Oscar de novo. E a sequência das motos, belíssima, é o ponto alto do filme.

Tron – O Legado acerta no visual, mas dificilmente fará história.

Tron – Uma Odisseia Eletrônica EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Tron, Steven Lisberger, 1982]

Tron – O Legado EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Tron: Legacy, Joseph Kosinski, 2010]

Comentários

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8 comentários sobre “Tron”

  1. Também achei o filme uma referência ao Star Wars. Talvez com um “que” de Matrix, aqui e ali.

    E na categoria das brincadeiras do tipo sabre de luz, a frase “Sam, eu não sou seu pai”, também soa como uma anti Darth Vader, né não?

    (e não corta dizendo que é spoiler, pq tá no trailer… hehe)

  2. Rebeca, no original o personagem-título tinha uma participação maior, mas não era o protagonista. A reviravolta foi bem ruinzinha mesmo.

  3. Verdade, Mitchel, terminei esquecendo de comentar: a trilha é muito boa e a ponta do Daft Punk é bem engraçadinha. Eles usam a versão “Tron” do traje de “Electroma”, o longa que eles dirigiram e estrelaram.

  4. Também gostei da participação de luxo do Daft Punk! Foi em uma das piores cenas do filme, mas eles mandaram muito bem nas pick up’s, rs.

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