“Diva é coisa séria”, diz Fujika de Halliday, provavelmente a mais contida entre as estrelas de Divinas Divas. E de coisa séria entende bem a cineasta estreante que resolveu contar esta história. Leandra Leal é uma das maiores constantes do cinema brasileiro. Seja o filme bom como O Lobo Atrás da Porta, seja ruim como Nome Próprio, uma coisa é certa: Leandra entregará uma performance, no mínimo, acima da média. O talento da atriz é diretamente proporcional a seu engajamento: Leandra sempre está envolvida em projetos e causas ligadas a direitos humanos e ações sociais. Não se admira que, em seu primeiro filme como diretora, ela tenha escolhido um projeto com causa. Divinas Divas reúne oito das principais remanescentes da primeira geração de atrizes transformistas do país. Todas, em algum momento, conheceram o palco do Teatro Rival, administrado pela família de Leandra há decadas. Contar a história destas personagens, a partir dos bastidores da montagem de um novo espetáculo estrelando estas oito divas, é o mote e a ambição deste documentário.

A ligação pessoal entre cineasta e personagens nunca é colocada em primeiro plano, mas serve como pano de fundo para que Leandra invada as intimidades destas estrelas do teatro nacional. IDivinas Divasnvasão até a segunda página porque quem manda no filme são elas, oito transgressoras, acostumadas a driblar uma vida de agressão, perseguição e desrespeito, sem papas na língua e fazendo arte. Da tentativa de Rogéria de ser aceita ao empreendedorismo de Eloína dos Leopardos, do estrelismo de Valéria à discrição de Fujika, passando pela serenidade de Jane di Castro e pelas histórias de vida de Camille K., Brigitte de Búzios e Marquesa, nada escapa à lente de Leandra, mesmo que ela não se dedique a fuçar a individualidade de nenhuma delas.Em tempos de drag queens fazendo sucesso na televisão, a delicadeza da cineasta em abordar temas espinhosos esbarra nos limites a que Leandra se auto-impõe e o respeito com que ela trata suas homenageadas assume, às vezes, ares de reverência. Mas, mais do que qualquer coisa, Divinas Divas é o registro histórico de pioneiras. Por isso mesmo, é essencial. E, se a intenção de Leandra Leal foi homenagear Rogéria, a mais célebre de suas personagens, conseguiu. Este é o filme de “travesti da família brasileira”.

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[Divinas Divas, Leandra Leal, 2016]

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