Homem-Aranha: De Volta ao Lar

Homem-Aranha: De Volta para CasaTom Holland apareceu para o mundo quando mal tinha completado 16 anos. Sua performance ao lado de Naomi Watts e Ewan McGregor em O Impossível foi quase tão impressionante quanto a recriação do tsunami no filme de J.A. Bayona. Holland foi, inclusive, cotado para uma indicação ao Oscar. Não concorreu, mas deixou uma impressão tão boa que ganhou a disputa pelo papel do super-herói mais popular dos quadrinhos. É meio injusto que seu filme solo como Homem-Aranha, depois do debut em Capitão América: Guerra Civil, tenha tantas contas a prestar: primeiro, havia uma certa má vontade em relação a um novo reboot do personagem nos cinemas; segundo, as discussões a cada novo filme da Marvel parecem se resumir a “é o melhor longa do estúdio” ou “a fórmula já está gasta”. Além disso, há um diretor praticamente desconhecido e uma parceria a fazer valer (pela primeira vez, temos um filme da Sony dentro do Universo Marvel).

Apesar de tantos senões, Homem-Aranha: De Volta ao Lar deu certo. A ideia de rejuvenescer o herói e amarrar a história com sua vida escolar garantiu novo frescor ao personagem, uma certa assinatura em relação aos filmes estrelados por Tobey Maguire e Andrew Garfield, e rendeu comparações — exageradas — aos filmes de John Hughes, embora haja uma referência explícita a Curtindo a Vida Adoidado. O carisma de Holland ajuda bastante, mas uma ótima ideia foi cercá-lo de jovens talentosos, como Jacob Batalon, Zendaya e Tony Revolori, pescado de O Grande Hotel Budapeste. Infelizmente, os ótimos Angourey Rice, de As Horas Finais, e Michael Barbieri, de Melhores Amigos, tenham tido papéis tão pequenos. A escolha polêmica de Marisa Tomei para o papel de Tia May, embora tenha modificado características fundamentais de uma unanimidade entre os leitores de quadrinhos, se ajustou bem ao que a Marvel esperava do personagem.

Com esta base estabelecida, Jon Watts cumpriu o esperado. O diretor do curioso Clown administrou bem um roteiro escrito a doze(!) mãos, as dele e as de outras cinco pessoas. E embora as críticas pareçam ressaltar as sequências passadas no ambiente escolar e a relação do protagonista com Tony Stark e Happy Hogan, os momentos mais fortes do filme acontecem a partir do encontro entre Peter Parker e o personagem de Michael Keaton, que interpreta o Abutre. A construção desse encontro, que aponta para alguns lugares comuns e dá a volta a cada oportunidade de cair no óbvio, é de uma consistência dramática impressionante. Keaton não tropeça em suas limitações e abre mão de sua ironia característica para dar densidade ao discurso de Adrian Toomes, num movimento pouco visto em sua longa carreira que transforma seu personagem num dos vilões mais sólidos do Aranha no cinema.

Apesar da mudança de ares, esta sequência nunca entra em conflito com o tom do filme, bem leve e, convenhamos, bem fácil de se conseguir — já que é exatamente a textura que o estúdio quer para seus longas. Embora nenhuma das cenas de ação não seja especialmente memorável, o tecido dramático e a visita ao universo escolar, algo que de certa forma traduz o personagem, colocam o reboot do Homem-Aranha num lugar confortável no ranking da Marvel e na lista dos melhores filmes do herói, como querem os maníacos da comparação. Mas, apesar de apontarem um bom caminho para o amigo da vizinhança, Tom Holland e Jon Watts ainda precisam comer muito feijão para bater aquele que talvez seja o melhor filme já feito a partir de um herói de quadrinhos. Naquela maravilhosa cena no metrô de Nova York de Homem-Aranha 2, Tobey Maguire e Sam Raimi escreveram seus nomes para sempre no Olimpo dos filmes de super-herói.

Homem-Aranha: De Volta ao Lar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Spider-man: Homecoming, Jon Watts, 2017]

Comentários

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5 thoughts on “Homem-Aranha: De Volta ao Lar”

  1. Não concordo com pontos fundamentais do texto:
    – o super-herói mais popular dos quadrinhos é o Batman, não o Homem-Aranha, e diversas pesquisas no setor já demonstraram isso;
    – Michael Keaton é um ator talentoso o suficiente para suas qualidades merecerem ser destacadas muito acima das supostas limitações citadas pelo autor;
    – o melhor filme já feito a partir de um herói dos quadrinhos é “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, de Christopher Nolan, infinitamente superior a todos os outros filmes inspirados em HQs.

    1. Felipe, bem-vindo. Realmente, o Batman é muito popular. Ele e o Aranha são os mais populares das HQs.

      Quanto ao Michael Keaton, ele tem seu valor, mas eu enxergo algumas limitações dramáticas nele. Geralmente, o Keaton funciona melhor com um certo excesso, mas nesse filme eu acho que ele vai além.

      – quanto ao “Cavaleiro das Trevas”, tenho minhas restrições. Acho que ele é grandioso demais. Escrevi dois textos sobre o assunto. Primeiro: https://filmesdochico.com.br/batman-o-cavaleiro-das-trevas/ Segundo: http://filmesdochico.com.br/batman-o-cavaleiro-das-trevas-um-mes-depois/

  2. Chico já assisti Cavaleiro das Trevas umas 3 vezes e em todas não consigo enxergar de onde vem todo esse hipe, algumas cenas e cortes parecem amadores, como a cena do Promotor Dent desarmando um bandido que entrou armado em um julgamento (WTF?) entre outras…

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