Soundtrack pode não ser o futuro do cinema brasileiro, mas, por ser um objeto estranho aos formatos mais enraizados que temos por aqui, parece apontar para um bem-vindo caminho do meio, onde um orçamento mais robusto não impede um cinema mais autoral. A história é a de Cris, um artista brasileiro que consegue uma permissão especial do governo para morar durante 12 dias numa estação de pesquisa cercada de gelo por todos os lados e habitada por quatro homens de nacionalidades diferentes. É desta experiência que ele espera retirar material para uma exposição.

SoundtrackNão é apenas o cenário que sugere um filme diferente, embora a interação e o conflito com a natureza talvez seja a mola mestra do texto, seja a natureza externa, seja a natureza do protagonista e daqueles com quem ele convive. O roteiro, embora mais redondo do que os filmes independentes nacionais no sentido ter um começo, um meio e um fim, se recusa a responder perguntas e em sua maior parte é bem consistente em fugir das obviedades. A fotografia e a música, aspectos fundamentais ao longa, exploram bastante a estranheza do lugar. E outro ponto a favor é exatamente saber aproveitar bem a condição de coprodução, em vez de apenas abrir espaço para um estrangeiro numa história tipicamente brasileira. A interação de Selton Mello com o elenco internacional, sobretudo com o inglês Ralph Ineson, ator de A Bruxa, é bem espontânea.

Embora os diretores, a dupla de publicitários 300ml, ajudem a promover o filme criando um certo mistério acerca de suas identidades (no melhor estilo Banksy ou Daft Punk), esse “extrafilme” é o que menos importa no projeto, seu primeiro trabalho para o cinema. De sua experiência na propaganda, eles trouxeram uma certa sofisticação visual que não implica necessariamente num visual publicitário para o cinema (como acontece com Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, por exemplo), e uma vontade grande de discutir o que é arte. É justamente este o grande senão deste trabalho: há uma certa petulância arthouse que ronda todo o filme e emerge aqui e ali, como se o próprio Soundtrack exigisse um lugar nessa bolha de “filme de arte”, culminando num final que não se decide entre abraçar o básico que o longa tanto evita e fazer um auto-elogio, tipo “sou um verdadeiro artista”.

Dito isto, o filme surpreende: está entre as coisas interessantes do ano e tem um olhar realmente diferenciado.

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[Soundtrack, 300ml, 2017]

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