Alguma coisa se perdeu para sempre quando o sul coreano Bong Joon-ho passou a fazer filmes em inglês. Uma perda na tradução mesmo, na capacidade de se comunicar plenamente numa língua que não é a dele. Como bom representante de sua etnia, o cineasta sempre demonstrou ser capaz de/e ser talentoso para trafegar com naturalidade entre o drama e a comédia, gêneros que têm uma linha divisória bastante tênue nas culturas orientais e que se encontram de forma ousada em outros gêneros do cinema asiático, principalmente filmes de ação ou de fantasia. Esse limite entre o que é trágico e o que é engraçado tem um exemplo clássico numa cena de seu melhor e mais conhecido filme, O Hospedeiro, quando a família da garotinha, abrigada num estádio depois do primeiro ataque do monstro, chora desesperadamente, acreditando que ela esteja morta. Esse desespero de pai, tios e avô, tão claro, tão sólido, tão real, ganha contornos de humor diante do exagero com que os atores conduzem a cena. O mesmo exagero que vemos em sequências limítrofes das animações do japonês Hayao Miyazaki, ou de filmes live action do chinês Stephen Chow.

Essa permissividade melodramática não encontrou par nos filmes globalizados em Joon-ho, embora Okja, sua primeira produção para o Netflix, esteja um passo adiante da primeira tentativa do diretor de conquistar plateias internacionais em língua inglesa, O Expresso do Amanhã. Produzido na Coreia, mas distribuído nos Estados Unidos pela Weinstein Co., o filme de 2013 foi, não apenas atrasado e mutilado, como teve dificuldade em encontrar um tom. Ao adaptar uma graphic novel francesa num filme falado em inglês, Joon-ho não soube bem onde colocar toda a liberdade dramática com que estava acostumado e que vimos em filmes como Memórias de um Assassino e Mother, que ganharam projeção internacional mesmo falados em coreano. Os excessos que eram marca e diferencial dos filmes de ação e suspense do diretor viraram exageros cosméticos, com cenários wesandersonianos, mas sem a melancolia que justifica sua artificialidade, ou simples caricaturas, a exemplo da interpretação e da concepção visual pobres e fora de tom de Tilda Swinton.

Okja, por sua vez, estrelou uma polêmica no Festival de Cannes, quando a Netflix informou que o filme não teria carreira nos cinemas. Nem isso, nem as dificuldades na projeção, que geraram vaias no festival, têm a ver, no entanto, com as verdadeiras fragilidades do filme: Bong Joon-ho não consegue chegar a um ponto de equilíbrio satisfatório entre a história de fantasia que se propõe a contar (e que nunca foi problema dentro de seu cinema) e a crítica sócio-política que pretende fazer, atacando frontalmente a indústria alimentícia. A primeira meia hora do filme, que mostra a amizade entre a pequena fazendeira sul-coreana e sua porquinha gigante, geneticamente modificada para parecer uma hipopótama, é adorável. O diretor mira numa pureza dramática que remete aos primeiros trabalhos de Steven Spielberg ou aos melhores filmes de fantasia dos anos 80. Quando deixa esse universo para revelar seus verdadeiros objetivos (criar uma trama ecológica de denúncia contra as grandes empresas), a inocência do material se transforma numa ingenuidade política de um didatismo quase tão constrangedor quanto o tom farsesco que Joon-ho insiste em manter. Curiosamente, tudo isso (a fantasia e a crítica política) funcionou e muito bem em O Hospedeiro.

Se em O Expresso do Amanhã, Tilda Swinton parecia deslocada diante do resto do elenco, aqui, além de Swinton, multiplicada por duas, caricata duplamente, o filme ainda tem Jake Gyllenhaal completamente equivocado. Os dois atores são os maiores exemplos de como aquele limite entre o trágico e o cômico não pode ser simplesmente copiado por atores ocidentais. Dá para entender o que os dois estão tentando fazer. Dá para perceber logo de cara que não funciona. Mesmo outros bons intérpretes, como Paul Dano, Shirley Henderson e Steve Yeun, estão fora do tom, enquanto todo o elenco de O Hospedeiro, a partir da mesma ideia, não apenas estão excelentes como justificam o filme. A garotinha Seo-Hyun Ahn, quase tão boa quanto a protagonista do longa de monstro do sul-coreano, parece ser a única que está levando o filme a sério, no meio de um elenco inteiro de tiozões da Sukita querendo fazer graça. O que diminui esse desconforto com o filme é a sequência final, antecedida por uma sacada lindíssima, que nos devolve a esperança no puro cinema de fantasia que os primeiros 30 minutos de Okja nos oferecem com tanto talento.

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[Okja, Bong Joon-ho, 2017]

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