Guerra dos Mundos

A paranóia causada pelos ataques do 11 de setembro de 2001 parece crescer a cada dia. Existe muita gente disposta a enxergar alusões, referências, conseqüências da tragédia em qualquer lugar, no dia-a-dia ou ou na arte. Steven Spielberg escolheu justamente este clima de instabilidade para rodar seu novo filme. Filme com uma proposta simples: a Terra foi invadida por alienígenas e eles querem nos matar. Todas as leituras possíveis já começaram a ser feitas e todas elas passam pelos reflexos que o terror espalhou nos últimos quatro anos, sobretudo em solo norte-americano.

De acordo com o diretor, o momento parecia ideal para fazer o filme (como parecia a iminência da Segunda Guerra Mundial ou o auge da Guerra Fria) e, diante disso, ele espalha ecos dessa paranóia pelo longa. Foram os terroristas?, pergunta Rachel a seu pai quando ele explica que sua cidade está sendo atacada. Mas muito além de qualquer alegoria política que possa parecer ser, Guerra dos Mundos, o livro que H.G. Wells escreveu no fim do século XIX, é uma obra de ficção, que usa o fantástico para divertir. Uma definição que cabe muito bem ao responsável por sua última encarnação.

Spielberg não é apenas o mais bem sucedido diretor do cinema pop, mas também é seu maior criador. Toda sua carreira é composta por filmes que exploraram esse namoro com a fantasia. O maior medo em relação a seu envolvimento com o material de Wells era como o cineasta bom moço lidaria com o fatalismo e a violência do livro. Muito mais esperto do que se acha, Spielberg usou o cenário e a história orginais, mas mudou os protagonistas, tendência em voga no cinema para modernizar e multiplicar as possibilidades de uma obra. Temos uma família no comando da ação. A cota bonzinho acaba aí.

O talento para criar o suspense, para envolver o espectador, característica presente em quase toda sua obra, está em seu estado mais avançado. E Spielberg não se acovarda e, inclusive, se aproveita desse dom para incorporar o espírito original da obra, pessimista, implacável, violento. Consegue construir seqüências físicas, exaustivas, onde o limite entre a tela e quem assiste desaparecem. É o diretor mais povão de Hollywood, é tão bom fazendo o que faz que não deveria se aventurar pelos filmes sérios.

E ainda é inteligente.

Guerra dos Mundos não trata muito bem os Estados Unidos. O mundo inteiro está sob ataque, mas somente vemos a destruição que acontece na terra de George W. Bush. E há muitas cenas violentas. O que mais se parece com um herói é um homem de comportamento psicótico, interpretado por Tim Robbins até com certa habilidade. Não há redenção, ninguém salva ninguém, o fim da história não passa pelo militarismo norte-americano. Todos somos alvo em potencial. As coisas não são tão simples assim.

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[War of The Worlds, Steven Spielberg, 2005]

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