Kirsten Dunst, Charlotte Rampling, John Hurt

Lars Von Trier é um cineasta acomodado. Parece dependente da polêmica. Se seu filme não tem um material que desperte amor ou ódio extremos, ele dá um jeito de arrumar confusão, defendendo Hitler e sendo expulso do maior festival de cinema do planeta. O prêmio de melhor atriz em Cannes para Kirsten Dunst pareceu fruto direto desse episódio para muita gente. Para não parecerem revanchistas, os jurados teriam premiado a interpretação da moça. Se isso for mesmo verdade, é uma pena porque Kirsten, sim, é um dos maiores trunfos de Melancolia.

Minha primeira definição sobre o filme foi: é um Festa de Família with lasers + “aham, Kirsten, sofre lá”. E a atriz sofre bastante, mas sua performance não se resume à escuridão de uma Charlotte Gainsbourg em Anticristo. Kirsten acerta no tom da personagem: confusa, mas firme em suas dúvidas. A complexidade de sua performance contrasta com a mulher confusa que ela interpreta. Kirsten põe ordem no caos sem perder a fragilidade.

E amargura tem de sobra nos filmes de Lars Von Trier. Aqui, o dinamarquês parece perguntar: “o que é um planeta em rota de choque com a Terra quando a vida já parece estar às vésperas do fim do mundo há muito tempo?”. A primeira metade do filme compõe esse cenário. Estamos num casamento onde os noivos parecem felizes e apaixonados. O cineasta, aos poucos, desaba nossas certezas. Os sentimentos da protagonista não parecem tão bem definidos assim e a culpa pode estar na caótica representação que temos de sua família: uma mãe excessivamente amarga, um pai desprovido de moral, uma irmã que quer manter as formalidades, mas está por um fio.

A personagem de Kirsten surge neste meio e, aos poucos, revela sua consição distópica. Parece não se encaixar em nenhuma situação. Von Trier filma bem essa inquietude no primeiro ato do filme, mas depois abre o foco e relativiza o peso dos personagens. Melancolia sofre bastante com isso. Restam Kirsten e os bons coadjuvantes. Charlotte Rampling e John Hurt, em papéis pequenos, entregam interpretações complexas, nada óbvias. Kiefer Sutherland também é uma boa supresa.

Charlotte Gainsbourg é quem protagoniza o segundo e último ato do filme. E seu personagem, menos interessante do que qualquer outro em cena, dá o tom final a Melancolia. A aproximação do planeta, antes uma metáfora para a crise da protagonista, agora parece querer abraçar significados demais. À medida que o descontrole aumenta, Von Trier parece mais perdido: a costura entre a trama principal e o pano de fundo fica fragilizada. Mesmo com tantos senões, este novo filme parece a coisa mais interessante que Lars Von Trier fez em muito, muito tempo.

Melancolia EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Melancholia, Lars Von Trier, 2011]

Comentários

comentários

7 thoughts on “Melancolia”

  1. Confesso que estou curioso para assitir a este filme. Chico, você não comentou Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte 2? Ou eu me passei? Abraços.

  2. Me pareceu que você empregou tanta energia para não “elogiar”, que a conclusão do seu texto – “este novo filme parece a coisa mais interessante que Lars Von Trier fez em muito, muito tempo” – ficou frágil.

    Concordo com suas opiniões sobre o temperamento dele, mas acho que o Lars von trier figura pública apenas agoniza alguma atenção. O que interessa é realmente sua capacidade cinematográfica.

    Ainda não vi o filme, verei.

    Abraço!

  3. Vitor, pelas minhas contas, eu falei mais bem do que mal, embora seja um filme que eu não queira rever nem tão cedo. E eu acho a capacidade de Lars Von Trier bem irregular. Para cada filme ótimo como “Ondas do Destino”, ele faz dois muito ruins como “Os Idiotas” ou “Anticristo”.

  4. Pra mim, OS IDIOTAS e ANTICRISTO estão justamente entre os melhores de Von Trier (junto, claro, com ONDAS DO DESTINO). Os filmes que me deixaram “de mal” com o diretor foram DANÇANDO NO ESCURO e DOGVILLE. Pulei dois filmes dele por causa desses dois.

  5. Oi Chico, fui um dos que achei a premiação da Kristen um ato meio de ficar em cima do muro por parte dos jurados (custava uma carta se posicionando?), mas pelo que eu li realmente a competição estava um tanto fraca e a Kristen é muito boa mesmo. Gostei muito também da Charlotte e da construção de personagem dela.

    Concordo quando você fala que o filme é meio perdido, ele tem ideias interessantes mas por vezes se preocupa tanto com o apuro visual e sensorial do filme (A música de Wagner encaixa perfeitamente aliás), que falta um pouco mais de cuidado com as personagens. A própria Kristen fica meio perdida na parte final, além de umas partes meio vergonhosas na primeira parte (como tudo que envolvia o chefe…)

  6. Isso que o Von Trier fez no Festival de Cannes não chamo de provocação, chamo de marketing barato. Provocação é o que o próprio filme faz, uma história que caminha para o caos e faz sua protagonista encontrar a paz de espírito. Não acho que seja excelente (odeio as cenas iniciais do filme, me soam pretensiosas e forçadas), mas mostra o quanto o Von Trier ainda é capaz de alcançar a boa forma de obras-primas como Ondas do Destino e Dançando no Escuro.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *