O VELHO E O NOVO

Woody Allen congela o tempo e parte em busca de um herdeiro

Woody Allen está velho. Os anos passam e a irreverência se acomodou. Os últimos filmes do diretor que virou marca de inteligência indicam que seu humor está cada vez mais gasto, preguiçoso, infrutífero. Dirigindo no Escuro, que estreou no ano passado no país, parecia o fundo do poço construído a partir dos três desacertos consecutivos de Allen desde o fim da década de noventa. Um filme sem graça, óbvio, cheio de piadas fáceis e até grosseiras. Os mais crentes (e os mais dissimulados) viram no longa um retorno às origens do pastelão, mas o filme tem cadeira garantida entre os piores trabalhos daquele que já foi o grande cineasta da Nova York urbana, inteligente, artista. Um trabalho com pouco esmero, com uma cada vez maior despreocupação plástica, um filme cansado. A boa notícia é que Dirigindo no Escuro realmente não poderia ser superado.

Em Igual a Tudo na Vida, está clara uma nova fase, ou pelo menos uma pausa para a reflexão em algum café de Manhattan. Woody Allen revela a seu público que sabe que envelheceu. E que sabe que não deixou herdeiros para o posto de cronista maior do mundo contemporâneo, da vida intelectual, da intelligentsia das metrópoles. No longa, ele é o velho escritor que coadjuva o jovem colega, protagonista do filme (vivido com dedicação por um talentoso Jason Biggs). É ele que aconselha, que indica caminhos para um personagem que é seu espelho. A afirmação a seguir pode até ser vista como uma grande bobnagem, mas o roteiro de Igual a Tudo na Vida metaforiza a vida do próprio Woody Allen. É nesse filme que ele escolhe seu herdeiro (ou que deixa clara esta intenção). É aqui que ele mostra que sua preocupação agora é continuar, prosseguir. Como um replicante que luta contra o tempo para não ser desligado, Allen, inquieto, decide permanecer. Isso se reforça no texto, melhor, e na construção estética do filme, fotografado por Darius Khondji. E é por isso que este filme vai muito além de qualquer outro trabalho seu nos últimos cinco anos: porque ele é tão sincero quanto inteligente.

IGUAL A TUDO NA VIDA

Anything Else, Estados Unidos/França/Holanda/Grã-Bretanha, 2003.

Direção e Roteiro: Woody Allen.

Elenco: Jason Biggs, Christina Ricci, Woody Allen, Stockard Channing, Danny DeVito, KaDee Strickland, Jimmy Fallon, Fisher Stevens, Anthony Arkin, Diana Krall, William Hill.

Fotografia: Darius Khondji. Montagem: Alisa Lepselter. Direção de Arte: Santo Loquasto. Figurinos Laura Jean Shannon. Produção: Letty Aronson. Site Oficial: : www.anythingelse-themovie.com.

nas picapes: Cheek to Cheek, Fred Astaire.

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