A versão online do In-Edit possibilitou que um público bem mais amplo do que o convencional tivesse acesso a uma infinidade de documentários musicais de vários lugares do planeta. O destaque da edição de 2020 foi mesmo para a seleção brasileira em competição. Pelo menos três grandes docs concorriam ao principal prêmio do festival, os três focados em figuras da nossa música popular. Dorivando Saravá, o Preto Que Virou Mar homenageou o pai do samba Dorival Caymmi; Garoto – Vivo Sonhando redescobriu para uma nova geração o violonista que influenciou toda a MPB a partir da Bossa Nova; e Porfírio do Amaral: A Verdade Sobre o Samba nos deu a chance de conhecer um compositor talentosíssimo que não teria sido tão bem tratado por nossa História. Eles não foram os únicos. Muitos outros documentários interessantíssimos foram apresentados, com destaque para um registro poético em cima de imagens gravadas por Charles Aznavour, uma viagem inesperada que reconstrói a riquíssima história da ilha de Ibiza e a emocionante jornada de um coral masculino da Noruega que se prepara para abrir um show para o Black Sabbath.

Aznavour by Charles ★★★½
Le Regard de Charles, Marc di Domenico, 2019

“Aznavour by Charles” reconstrói a história de um dos mais conhecidos cantores franceses a partir de imagens gravadas por ele mesmo. Todo o texto do documentário é tirado de escritos de Aznavour, narrados por Romain Duris. O resultado é uma viagem afetiva às memórias do músico, organizada como um diário de registros, impressões e reflexões sobre o mundo.

Dorivando Saravá, o Preto Que Virou Mar ★★★½
idem, Henrique Dantas, 2019

“Dorivando Saravá, o Preto Que Virou Mar”, do Henrique Dantas, é uma belíssima homenagem a Dorival Caymmi, que se foca sobretudo no seu legado. Os causos e depoimentos têm sempre o objetivo de analisar a ressonância de sua obra e como ela traduziu a negritude e a Bahia. São entrevistas que nunca ficam na pura perfumaria. Das mais simples às mais poéticas, elas sempre são usadas para mostrar como a arte de Caymmi foi buscar um ideário cultural e religioso negro para refletir, mesmo que esponteamente, sobre o papel que ele ocupa no mundo. Tem umas ideias muito boas, como a sobreposição de narrações de cartas do músico que resumem tanto o que ele criou quanto sua visão de mundo. Em 2013, Dantas já tinha feito um grande documentário sobre o cineasta Olney São Paulo, “Sinais de Cinza – A Peleja de Olney Contra o Dragão da Maldade”.

Garoto – Vivo Sonhando ★★★
idem, Rafael Veríssimo, 2020

“Garoto” é um belo documentário, riquíssimo em imagens e depoimentos, inéditos e recuperados, que confeccionam um caminho saboroso para reconstruir a trajetória de um dos mais importantes músicos brasileiros. A montagem do filme de Rafael Veríssimo é espertíssima porque ao mesmo tempo em que oferece uma história com começo, meio e fim para não iniciados, não se perde em didatismos para quem já conhecia a música de Garoto. Apresenta e problematiza os truques deste pioneiro, virtuoso no violão, que influenciou profundamente a Bossa Nova e a MPB em si. Entre a reverência e a análise, é um filme que oferece muito.

Ibiza – The Silent Movie ★★★
idem, Julien Temple, 2019

É interessante que como os primeiros minutos de “Ibiza – The Silent Movie” parecem anunciar um vídeo institucional da ilha que dá sentido à expressão “TOP”. Mas o plano de Julien Temple era justamente entregar esta primeira impressão para começar a desconstruir a visão que se tem de paraíso baladeiro para coxinhas e o filme se transforma numa bela surpresa. Temple recria a história da ilha, desde os Fenícios, passando por Colombo, Franco e o Nazismo, reciclando filmes, imagens de arquivo, criando encenações e contrapondo todos estes elementos a registros atuais de festas e turistas, costurando uma reflexão sarcástica do que o destino reservou a este lugar milenar perdido no Mediterrâneo. Diretor de dezenas de vídeos musicais, o cineasta empresta deles a montagem rápida, multiinformativa, que muitas vezes parece uma colagem de ideias.

Matriz.doc ★★★
idem, Otávio Sousa, 2020

“Matriz.doc” é sobre os bastidores do disco que é um retorno de Pitty a Bahia, o que é bem interessante para conhecer o processo do projeto, mas que também limita um pouco a proposta. No entanto, tem vários momentos muito espontâneos. O melhor deles é a incrível volta da cantora ao Calypso, o bar rock que bombava na década de 2000 em Salvador, em que vc desviava da banda para conseguir entrar no banheiro. Quem foi, sabe.

Memórias Afro-Atlânticas ★★★½
idem, Gabriela Barreto, 2019

Uma dica final do In-Edit Brasil: o documentário “Memórias Afro-Atlânticas”, disponível até à meia-noite de hoje, é uma carta de amor à história das religiões de matrizes africanas, em especial o Candomblé. O filme de Gabriela Barreto registra o precioso do trabalho do linguista norte-americano Lorenzo Dow Turner, que nos anos 1940 documentou em fotos, textos e gravações os terreiros de Candomblé na Bahia. Somente 70 anos depois, esse acervo foi redescoberto pelo etnomusicólogo Xavier Vatin que voltou aos locais onde os registros foram feitos e apresentou esses arquivos para os herdeiros de quem aparece no que foi documentado. Temos a filha de Mãe Menininha do Gantois ouvindo e a neta dela reproduzindo uma gravação da ialorixá de 1940, por exemplo. O filme ajuda a mostrar como uma religião de tradição oral conseguiu preservar sua história e sua memória ao mesmo em que deixa clara a importância de registrar essas tradições. Cada descoberta ou redescoberta acontece tanto no campo documental quanto no emocional, diferencial básico que garante a baianidade deste filme.

The Men’s Room ★★★½
For vi er Gutta, Petter Sommer, Jo Vemund Svendsen

Enquanto documentário, é um registro de observação bem tradicional, acompanhando os ensaios de um coral masculino que vai abrir um show do Black Sabbath, mas um drama é adicionado a isso, o fato de que o maestro do grupo está com câncer em fase terminal. Os diretores exploram com muita sensibilidade esta informação que se torna um dos pilares do filme, mas, de forma respeitosa, mirando na relação afetiva entre aqueles homens na faixa dos 50, 60 anos.

Variações ★★★
idem, João Maia, 2019

Para retratar um artista tão à frente de seu tempo, “Variações” é um filme bastante tradicional. Está claro que João Maia tenta ser muito respeitoso com o retratado — foram 15 anos de pesquisas e dedicação ao projeto –, mas tanta reverência destaca alguns pecados: o maior deles é explorar muito pouco a sexualidade de António Variações, algo fundamental na construção de sua figura artística e criativa. Em alguns momentos, parece até uma biografia nos moldes do que se faz aos quilos no Brasil, mas é um personagem tão fascinante — e icônico para a música popular portuguesa e a cultura LGBTQ no país — que acho que vale muito conhecer. Sérgio Praia abraça com muita dignidade a missão de encarnar a figura andrógina e complexa de Variações. Sempre me impressiona como somos ignorantes em relação à cultura portuguesa.

Outros longas que assisti:

Aleluia, o Canto Infinito do Tincoã ★★★ (Tenille Bezerra, 2020)
Dom Salvador & The Abolition ★★★ (Artur Ratton, Lilka Hara, 2020)
Faça Você Mesma ★★½ (Letícia Marques, 2020)
Gay Chorus Deep South ★★★ (David Charles Rodrigues, 2019)
My Darling Vivian ★★★ (Matt Riddlehoover, 2020)
Neojiba – Música Que Transforma ★★★ (Sérgio Machado, George Walker Torres, 2020)
Porfírio do Amaral: A Verdade Sobre o Samba ★★★½ (Caio Rubens, 2020)
Tempo Zawose ★★½ (Lwiza Gannibal, 2020)
Vadio – I Am Not A Poet ★★★ (Stefan Lechner, 2018)
Valeu, Animais! ★★½ (Frederico Neto, Ivan Vinagre, 2020)
Welcome To The Dark Ages ★★½ (Paul Duane, 2020)
White Riot ★★★ (Rubika Shah, 2019)

E os curtas:

Free Seat ★★★ (Ardalan Aram, 2019)
Nada Pode Parar os Autoramas ★★★ (Bruno Vouzella, Manoel Magalhães, 2020)

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