Matrix: o um, o dois, o três e o herói que volta a ser o que era

Herói. Vamos falar sobre esse cara. Herói é aquele que comete grandes feitos, geralmente com intenções muito boas. Herói é o cara que salva a criancinha do incêndio e o gato da árvore, e é aquele que prende o bandido, que também é conhecido como vilão. No fim das contas, o herói é o cara legal, aquele que faz o que é certo e justo apenas porque aquilo é certo e justo e não porque quer ganhar alguma coisa com isso. No geral, o herói de verdade nem liga de ser herói. Ele trabalha com uma missão e só encerra suas atividades quando ela está cumprida.

Eu sempre li quadrinhos, desde pequeno. Meu contato com os heróis, aqueles de metirinha, que salvam bem mais do que gatos em árvores, sempre foi intenso em quantidade e qualidade. O herói é uma figura necessária na formação da criança. Ele ajuda, na brincadeira, a definir caráteres, a mostrar certos e errados, por mais que essas definições sejam nebulosas. O herói clássico é um homem perfeito, larga tudo por sua missão… até um amor. Lois Lane que o diga. Até casar com o Superman, que na minha época ainda se chamava Super-Homem, foram anos, quase sessenta.

Os anos se passaram e os heróis mudaram. O mundo contemporâneo exigia um perfil diferente do nosso personagem. Ele ganhou dramas mais sólidos e comportamentos mais humanos. O herói deixou de ser infalível. Os X-Men iniciaram essa revolução ainda nos ano 60, criando personagens que lutavam muito mais por sua aceitação do que salvando o mundo. A graphic novel O Conflito de uma Raça (ou Deus Ama, o Homem Mata, relançada este ano no Brasil), possivelmente a mais bem escrita novela dos quadrinhos das majors norte-americanas, é o ápice desta batalha.

Os X-Men ganharam o cinema em 2000, mas o espírito de sua criação só apareceu no segundo longa-metragem estrelado pelo grupo, inspirado justamente na revista citada acima, que chegou às telas em abril de 2003. Este ano, por sinal, tem tido uma das maiores, talvez a maior, concentração de heróis na história do cinema. Heróis modernos, como os X-Men ou o Demolidor; quase anti-heróis como o Hulk; heróis à moda antiga como a turma de O Senhor dos Anéis; e heróis que vivem em cenários muito mais que contemporâneos, mas que são tão clássicos quanto o maior de todos eles, aquele que veio de Krypton.

Nesta última categoria, está incluído Neo, o protagonista da trilogia The Matrix, cujos últimos dois exemplares estrearam este ano nos cinemas. Quando surgiu em 1999, o filme original foi apontado como uma revolução na concepção de um longa de ficção-científica. Nem é tanto assim. Sua proposta de simulacros e simulações não é verdadeiramente uma novidade, mas não deixa de ser fascinante. A dominação pelas máquinas, no cinemão comercial, já era aventada no primeiro O Exterminador do Futuro e olha nós estávamos no longínquo ano de 1984. A revolução de The Matrix aparece em se aprofundar nesse universo. E, muito mais, na concepção visual que criou para contar sua história. Por mais que já se tenha dito (e se desdenhado tempos depois), os efeitos visuais, e junto com eles a direção de arte, os figurinos e a câmera do primeiro longa, são revolução pura.

A história criada pelos irmãos Wachowski, se não é original, é engenhosamente bem escrita. É inteligente, cheia de nuances (perdoem-me, mas eu acho nuança uma palavra muito feia) e, o mais importante, extremamente divertida. The Matrix resgata a figura clássica do herói, aquele da missão, e a transporta para um universo tecnológico alheio a ele, onde poderia se esperar um protagonista menos à antiga. A filosofia do filme, que recicla artes marciais e pensamento oriental, incomodou muita gente, mas ela não é o mote de The Matrix. Aqui, o que importa é o fato de que há um herói e um inimigo muito poderoso para ele derrotar – e que é muito divertido acompanhar sua odisséia.

Na época, 1999, o filme virou febre. Quase todo mundo falava bem, se impressionava com a proposta estética e com a filosofia do filme. Mas aí os Wachowski resolveram anunciar que The Matrix era uma trilogia. E quando The Matrix Reloaded chegou aos cinemas em maio deste ano, uma avalanche de críticas e acusações, se não infundadas, pouco consistentes, surgiram de todos os lados. Quando não se tem o que falar, se fala besteira. Uma delas nos informa de que o filme é incompleto, não tem fim. Bem, aos ingênuos o aviso de que quando um longa é o filme do meio de uma trilogia, ele lança deixas que somente vão ser concluídas num terceiro produto (nada muito complicado de entender para quem leu pelo menos uma série de quadrinhos). Ainda mais quando já se sabe de que o capítulo final estrearia seis meses depois.

A segunda bobagem insiste em comparar Reloaded ao original, chamando-o de fraco, sem força, sem novidade. Aqui, na minha opinião, a questão já é a inteligência artificial de quem teve a idéia de arrumar esse motivo para criticar o filme. Se The Matrix apresenta um universo inteiro, cheio de possibilidades, Reloaded não só não deveria ter essa função, como deveria – e o faz – investigar ainda mais esse novo universo. Talvez filosofe demais, mas será que essa é a questão principal? O argumento mais impressionante de todos é o dos efeitos visuais. Dizer que a cena da luta entre Neo e os cem agentes Smith é mal feita, CGI puro, e pouco empolgante sequer merece comentário.

Acho que existe muita mania de procurar agulha no palheiro norte-americano. Tudo que é símbolo da dominação dos malvadões ianques vira alvo fácil para críticas: seja a Coca-Cola, o Mickey Mouse ou o cinemão. E como o filme estreou logo depois da Guerra…

Novembro chegou e com ele veio The Matrix Revolutions. Engraçado. Muita gente que odiou o segundo filme, que o chamou de pior filme do ano, do mundo, do que o valha, disse que gostou do filme. Nem tudo está perdido. A conclusão da saga de Neo de sua luta contra as máquinas é um bom filme, tão divertido quanto seus antecessores. Primeiro, é neste longa que Neo assume sua função de herói clássico pincelada nos filmes anteriores. Aqui ele faz o que tem que fazer. Mas sua jornada até descobrir sua missão e executar seu papel é menos interessante que o resto do filme.

A seqüência da batalha entre homens e máquinas é adrenalina pura. E aproveita os clichês mais óbvios da forma mais empolgante possível. O coronel linha dura, a moça que luta para ajudar o namorado e o jovem idealista são personagens estereotipados até o extremo, mas vê-los em ação é absolutamente envolvente. São heróis comuns que realizam feitos grandiosos, mas que nesse filme não ganham destaque especial ou prêmios por suas performances. Até porque heróis não precisam de prêmios.

The Matrix Revolutions é uma conclusão coerente para a saga de Neo. Um filme que prende o espectador na cadeira. Não só por seus efeitos ou por seu visual. Mas porque sua história é daquelas simples, que fazem a gente torcer pelo herói. É claro que para isso é preciso se deixar viajar um pouquinho…

The Matrix
The Matrix, EUA, 1999.
Direção e Roteiro: Larry e Andy Wachowski.
Elenco: Keanu Reeves, Carrie-Ann Moss, Laurence Fishburne, Hugo Weaving, Anthony Zerbe, Joe Pantoliano, Marcus Chong, Gloria Foster.
Produção: Grant Hill e Joel Silver. Música: Don Davis. Fotografia: Bill Pope. Edição: Zach Staenberg. Direção de Arte: Owen Paterson. Figurinos: Kym Barrett.

The Matrix Reloaded
The Matrix Reloaded, EUA, 2003.
Direção e Roteiro: Larry e Andy Wachowski.
Elenco: Keanu Reeves, Carrie-Ann Moss, Laurence Fishburne, Hugo Weaving, Jada Pinkett Smith, Harold Perrineau Jr., Harry J. Lennix, Lachy Hulme, Peter Lamb, Nathaniel Lees, Gina Torres, Clayton Watson, Lambert Wilson, Anthony Zerbe, Mary Alice, Tanveer K. Atwal, Helmut Bakaitis, Monica Bellucci, Rachel Blackman, Ian Bliss, Sing Ngai, Essie Davis, Nona M. Gaye.
Produção: Grant Hill e Joel Silver. Música: Don Davis. Fotografia: Bill Pope. Edição: Zach Staenberg. Direção de Arte: Owen Paterson. Figurinos: Kym Barrett.

The Matrix Revolutions
The Matrix Revolutions, EUA, 2003.
Direção e Roteiro: Larry e Andy Wachowski.
Elenco: Keanu Reeves, Carrie-Ann Moss, Laurence Fishburne, Hugo Weaving, Jada Pinkett Smith, Harold Perrineau Jr., Harry J. Lennix, Lachy Hulme, Peter Lamb, Nathaniel Lees, Gina Torres, Clayton Watson, Lambert Wilson, Anthony Zerbe, Mary Alice, Tanveer K. Atwal, Helmut Bakaitis, Monica Bellucci, Rachel Blackman, Ian Bliss, Sing Ngai, Essie Davis, Nona M. Gaye.
Produção: Grant Hill e Joel Silver. Música: Don Davis. Fotografia: Bill Pope. Edição: Zach Staenberg. Direção de Arte: Owen Paterson. Figurinos: Kym Barrett.

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