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DAU. Natasha ★★
idem, Ilya Khrzhanovsky, Jekaterina Oertel, 2020
DAU. Degeneração ★★★
DAU. Degeneratsiya, Ilya Khrzhanovskiy, Ilya Permyakov, 2020

O projeto DAU é tão único e complexo que fica até difícil de acreditar em como ele foi desenvolvido. A ideia inicial era realizar um filme inspirado no trabalho do físico Lev Landau, um dos principais cientistas soviéticos, mas ao longo do trabalho o diretor Ilya Khrzhanovskiy resolveu expandir consideravelmente suas ambições e construir o que ele chama de projeto multi-disciplinar que envolve cinema, ciência, performance e experimento social. O maior passo para isso foi construir em tamanho real uma réplica de um instituto soviético de tecnologia para onde convidou centenas de artistas, cientistas, militares e pessoas comuns. Ao longo de dois anos, eles viveram como se estivessem no período soviético, com móveis, comida e roupas da época, comandando pesquisas científicas reais e encenando para as câmeras do diretor. O resultado estreou como uma instalação multi-plataforma e uma série de filmes que abordam nuances, períodos e aspectos diferentes desta experiência. “DAU. Natasha” e “DAU. Degeneração” foram os dois primeiros filmes exibidos fora do contexto da instalação, no Festival de Berlim deste ano. O primeiro, em competição. São dois filmes bem diferentes entre si apesar de utilizarem o mesmo cenário, alguns dos mesmos atores e terem uma unidade entre si.“Natasha” é centrado personagem-título, uma garçonete que trabalha na cantina do Instituto. Khrzhanovskiy acompanha sua rotina, mostra a rivalidade que tem com uma colega e dedica boa parte do tempo a sua vida amorosa e sexual, em especial à relação que mantém com um homem casado. O cineasta não tem pudores em filmar cenas de sexo com direito a detalhes explícitos. Quando elege uma personagem, o diretor especifica muito o objeto e o caráter de retrato de época e as discussões mais existenciais, que é o que o projeto tem de mais interessante, ficam meio diluídos, principalmente quando o foco é na violência de que ela é vítima. As cenas de tortura, sob o pretexto da denúncia, são muito incômodas e o filme termina ganhando um aspecto um tanto misógino.

Por outro lado, “Degeneração”, com suas mais de seis horas de duração, é um capítulo muito mais ambicioso e complexo. É, em certa medida, um resumo do projeto como um todo. Os primeiros 30 minutos, antes mesmo de apresentar os principais personagens, se dedicam basicamente a discussões de teorias científicas e filosóficas, que os diretores (aqui a codireção é de Ilya Permyakov, enquanto “Natasha” é uma parecia com Jekaterina Oertel) conseguem transformar em debates densos e muito atrativos. Como não existe propriamente um protagonista, o filme consegue ser um retrato mais completo da experiência como um todo. Existem vários núcleos de personagens que, paralelamente, ajudam a desenvolver temas variados, passando pela fixação na criação de um super-homem até questionamentos sobre a semelhança entre o que acontece naquela ambiente e o que Hitler fazia na Alemanha Nazista. De certa maneira, mesmo tentando estudar os mecanismos totalitários do passado, o longa consegue ser bastante atual, antecipando, inclusive, a chegada “autorizada” do autoritarismo ao poder em vários países do mundo: “esses demônios, eles são demônios honestos. Eles nos disseram que eram demônios”. Do lado contrário, da mesma maneira que em “Natasha”, K sente a necessidade de ser explícito quando se fala de sexo e violência, como forma de denúncia. Há várias cenas mais explícitas, em que se expõe órgãos genitais e até secreções corporais sob o pretexto de registrar os soldados como animais selvagens. O Mesmo acontece na sequências mais violentas como uma que envolve a morte de um porco e o ataque a um apartamento. É quando as coisas ficam mais simplificadas e um personagem resume didaticamente as intenções dos autores: “é simples. Nós construímos; eles destroem”. Esses contrapontos desequilibram o filme, mas, no geral, “Degeneração” é uma experiência válida.

Filho de Boi ★★★
idem, Haroldo Borges, Ernesto Molinero (co-diretor), 2020

A história de João é a história de muito sertanejos que vivem uma realidade árida tanto por causa da geografia e do clima quanto por causa das condições e possibilidades. João sonha em ir embora do lugar onde vive sozinho com o pai nas redondezas de uma pequena cidade, onde é alvo de piadas dos outros meninos. E eis que surge o circo. “Filho de Boi”, filme dirigido por Haroldo Borges, faz um retrato bastante honesto e cuidadoso de um garoto de 13 anos que se vê impedido de crescer. Crescer, no mais figurado dos sentidos, como homem, como pessoa. É um trabalho delicado de construção de personagem, que apesar de algumas vezes parecer apontar para o excesso dramático (o menino foi prepardo por Fátima Toledo) consegue em João Pedro Dias um defensor jovem, mas muito promissor. O roteiro do filme, assinado por Borges e pela cineasta Paula Gomes, diretora do belo “Jonas que o Circo de Lona”, mira no universo de fantasia representado pela idealização da vida circense como única saída possível para a realidade extrema que oprime o personagem. Nesse aspecto, as performances de Luiz Carlos Vasconcelos e Vinícius Bustani, ambos muito bem, fazem um contraponto muito interessante, representando dois espectros da figura paterna. Um é o pai rígido e superprotetor, que nunca se recuperou do luto de um amor perdido e isola o filho para prepará-lo para as durezas do mundo. O outro é “pai” carinhoso, atencioso, aquele que tem qualquer “desvio” perdoado porque representa o sonho da liberdade, mas, na maioria das vezes, chama João para a realidade. É um papel escrito e defendido com muita generosidade. Embora o clímax do filme talvez merecesse uma cena mais forte (aquela da apresentação no picadeiro), o maior mérito de “Filho de Boi”, que tem codireção de Ernesto Molinero, está no “corpo” do longa, nas sequências supostamente mais banais do roteiro, nos detalhes, e no fato de sempre procurar o caminho da sensibilidade para conduzir os caminhos de seu jovem protagonista.

O Lodo ★★
idem, Helvécio Ratton, 2020

Mesmo com várias fragilidades, “O Lodo” é o filme mais ambicioso e ousado da carreira de Helvécio Ratton justamente porque o terreno que ele explora foge do infantil, que o consagrou, e do retrato de uma realidade que vemos em seus filmes mais “sérios”. Baseado nos escritos de Murilo Rubião, o longa mostra um protagonista transtornado, à beira da depressão, que procura ajuda psiquiátrica para tentar entender suas aflições, mas se assusta com essa possibilidade, se refugiando em suas próprias alucinações. Ratton acompanha sua jornada deste homem entre o delírio e a “vida real” ao longo de todo o filme, o que abre (ou deveria abrir) muitos caminhos de narrativa e de linguagem. O problema é que o tom do filme não ajuda a estabelecer essa complexidade. É um tom meio debochado, que aposta mais no bizarro, no ridículo, do que numa experiência mais introspectiva é psicológica. O resultado é que os dois planos se confundem, mas não por causa de uma construção planejada, mas de uma certa falta de refinamento em algumas decisões.

Mate-o e Deixe Esta Cidade ★★★
Kill It and Leave This Town, Mariusz Wilczyński, 2020

O modo como organizamos nossas próprias memórias depende de cada um. Lembranças são registradas talvez sem uma precisão absoluta, mas de uma maneira muito legítima, com o que guardamos dos momentos importantes de nossas vidas. O que Mariusz Wilczynski faz em “Mate-o ou Deixe Esta Cidade” é bem genuíno porque seu “caderno de anotações“ sobre seu passado, é formado por rascunhos de como certas coisas ficaram gravadas em seu pensamento. O caos que reina na maneira como o diretor concebe seu filme, visual ou narrativo, muito se assemelha ao tipo de registro que fazemos do que já ficou pra trás. O projeto, muito pessoal, demorou cerca de 15 anos para ser completado. Talvez porque olhar para si mesmo, para sua história, não seja tão fácil assim. Quando assume que suas memórias são ou se parecem com rabiscos numa folha de papel, o cineasta polonês se coloca exposto, vulnerável, como se declarasse que não existe uma verdade absoluta pra tudo o que alguém já viveu e a maneira como olhamos nossa infância, para nossa família, para a morte, depende do que construímos para nós mesmos.

O Século 20 ★★★½
The Twentieth Century, Matthew Rankin, 2019

A maneira como Matthew Rankin olha para a História é a prova de que para biografar personagens reais e falar sobre política não é preciso abrir mão da consciência de que o cinema é um simulacro da realidade. Rankin utiliza cenários assumidamente surreais e estilizados para mostrar os passos de seu protagonista, um homem que aspirava o cargo de primeiro-ministro do Canadá, W.L. Mackenzie King. O fato de trabalhar com personagem real, figura pública, que exerceu o cargo que queria por três vezes, não segura as obsessões estéticas e satíricas do diretor, que também escreveu o roteiro desse seu primeiro longa-metragem. O humor popular, acessível, que ele utiliza para contar essa história, cria um paralelo curioso com a radicalidade visual desse projeto. No entanto, ambos, ironia e plástica, convivem com harmonia impressionante em “O Século 20“. Se Rankin resolve correr o risco da possibilidade de seu filme não ser encarado como um comentário sério (e talvez nem seja) sobre política, por outro lado, ele se coloca numa posição de autor, assumindo suas obsessões, valorizando suas referências e justificando, de uma outra forma, todas suas escolhas. O filme é de um frescor raro nos dias de hoje, onde o caminho da sátira geralmente fica restrito a texto e interpretações e o caminho do estético parece se contentar apenas com o visual, em detrimento de qualquer tipo de discurso. O projeto pode não funcionar para todos os públicos, ou por parecer tolo ou radical demais, mas o diretor entrega um belo presente para quem comprar seu olhar irônico e muito pessoal para a História.

Suor ★★★½
Sweat, Magnus von Horn, 2020

Magnus von Horn resolveu dar sua contribuição para as discussões sobre a artificialidade das relações virtuais na forma de um drama que guarda um espasmos de comédia durante um bom tempo. Esse tom indefinido incomoda, mas também empresta uns pontos para “Suor”, um filme sobre fingir ser o que não se é. Sua protagonista é a musa fitness Sylwia Zajac, uma celebridade com milhares seguidores nas redes sociais que partilha sua vida de plástico em vídeos entusiasmados, mas vive num estado semi-depressivo. Uma interpretação bem comprometida de Magdalena Kolesnik, presente em praticamente todas as cenas. Ela consegue dar a dimensão de como uma pessoa que vive da própria imagem vira refém justamente desta imagem. O diretor, em seu segundo longa-metragem, consegue traduzir em diálogos propositadamente vazios e na imagens supercoloridas do filme a fantasia de uma vida perfeita, vendida como produto pelos digital influencers e consumida por fãs obsessivos que se acham íntimos. Mas o mais interessante é acompanhar como a personagem principal desenvolve essa consciência sobre sua vida irreal, mas mesmo assim sabe que se colocou numa posição em que sair dessa farsa pode fazer não apenas com que ela perca aquilo que já conseguiu, mas que não sobre muito de quem ela acredita que seja.

(+)

Lista com todos os filmes que vi na Mostra de 2020 comentados aqui no blog.

Lista com todo os filmes da seleção já vistos no Letterboxd.

Informações básicas: a 44ª Mostra de Cinema de São Paulo acontece online a partir de 22 de outubro e vai até dia 4 de novembro. As informações detalhas sobre o evento e sobre cada produção exibida estão no site da Mostra. A maior parte dos filmes será exibida na plataforma Mostra Play, criada para o evento. Cada filme vai custar R$ 6 e pode ser comprado na própria plataforma com os cartões de crédito Visa e Mastercard. A compra é de um filme por vez e será liberada à meia-noite e um do dia 21 para o dia 22. Quase todos os filmes já poderão ser adquiridos no primeiro dia. Alguns só entram na segunda semana. A partir da data da compra, você tem 3 dias pra dar o play e, a partir do momento em que começa a ver o filme, tem 24 horas para terminar de assisti-lo. O longa “Casa de Antiguidades” vai ser exibido exclusivamente no Belas a la Carte. A compra deste filme será nesta plataforma pelo mesmo valor. Não é preciso ser assinante. Quinze filmes podem ser vistos gratuitamente na plataforma Sesc Digital e outros quinze serão disponibilizados também de graça no SP Cine Play.

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