Branco Sai, Preto Fica

Branco Sai, Preto Fica EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Branco Sai, Preto Fica, Adirley Queirós, 2014]

Uma ficção-científica caseira em forma de manifesto contra o status quo. O novo filme de Adirley Queirós, Branco Sai, Preto Fica, resgata o espírito revolucionário dos filmes de Rogério Sganzerla e André Luiz Oliveira, reprisando, inclusive, sua criatividade para explorar os recursos escassos que os financiavam. Queirós volta a explorar os limites entre documentário e ficção como em seu primeiro longa, A Cidade é uma Só?, utilizando atores com deficiências físicas para interpretar personagens que lidam com as consequências da violência policial. A denúncia social está ali, como subtexto que quase o tempo todo volta à superfície, mas o formato de brincadeira, com um terceiro protagonista, Dilmar Durães, na pele de viajante do futuro que investiga o que aconteceu com os dois primeiros, areja a postura política do longa. O filme tem um problema de ritmo que atrapalha um pouco o fluxo da história, mas que cabe em seu formato de panfleto libertário. Queirós reitera sua condição de cineasta imprevisível – e por isso mesmo muito interessante.

Quando os Animais Sonham

Quando os Animais Sonham EstrelinhaEstrelinha½
[Når Dyrene Drømmer, Jonas Alexander Arnby, 2014]

Jonas Alexander Arnby trabalhou no departamento de arte de dois filmes de Lars Von Trier antes de dirigir seus próprios curtas, o que lhe valeu um cuidado com a plástica de seu primeiro longa. Quando os Animais Sonham oferece a belíssima premissa de um filme de temática fantástica em meio a tantos dramas sociais e filmes políticos na Mostra de Cinema de São Paulo, mas a história da jovem que descobre ter recebido uma herança maldita da mãe tem uns furos de roteiro que põem a credibilidade da trama em xeque, o que complica ainda mais quando descobrimos que o filme recicla ideias de outros bem melhores, como Deixa Ela Entrar. Arnby se esforça para fazer um filme elegante e consegue. A fotografia explora os cenários com curiosidade, mas sem alarde e a trilha têm arranhões incômodos que funcionam para garantir a atmosfera do filme. A protagonista é meio apática, o que o papel de certa forma, exige, mas o atores que fazem seus pais, Sonja Richter e Lars Mikkelsen, irmão de Mads, estão ótimos. Mas os lugares comuns, que pareciam não ser um problema, vão tomando conta do filme e seu impacto diminui consideravelmente.

Romãs Verdes

Romãs Verdes EstrelinhaEstrelinha½
[Anar-Haye Na-ras, Majid Reza Mostafavi, 2014]

O primeiro filme de Majid Reza Mostafavi consegue se afastar de um certo círculo vicioso temático e estético do cinema iraniano, com uma fotografia preocupada em tornar o longa agradável para os mais variados olhares, sem cair na exploração do “exotismo” no país. Ao mesmo tempo, a trama explora um drama pessoal que parece ter muito mais força emocional do que conotações sócio-políticas, mas que também não vende um filme alienado. Mostafavi filma um espécie de homenagem a Yasujiro Ozu com trens cruzando o cenário e a história o tempo inteiro. Embora viva um momento de desespero quando um acidente muda os planos de sua família e uma série de pequenas tragédias comece a acontecer, a protagonista, exceto por uma cena, não busca comiseração. A resolução, embora busque uma certa poesia e se prive de desfechos mais concretos, funciona como o que o filme pretende ser: um reflexo das tragédias em potencial que nos ameaçam.

Comentários

comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *