A estratégia de dominação do mundo pela Marvel termina num filme que, de um lado, é uma grande homenagem aos quadrinhos e ao próprio universo que a editora construiu como estúdio, e, por outro, é completamente baseado nas relações que os personagens mantêm entre si e nas relações que nós, espectadores, mantemos com eles. Se Guerra Infinita era grandioso do começo ao fim, Ultimato é intimista nos mais variados níveis e intensidades.

Os irmãos Russo comandam o filme conscientes das idiossincrasias que têm em mãos e resolvem adotar a tática de se concentrar nos arcos dramáticos dos seis integrantes originais do grupo, atentos a seu processo de luto pelos amigos dizimados por Thanos, mas também a sua própria história dentro e fora do MCU. A estratégia nos dá a chance de nos despedirmos de cada um deles, mesmo que eles não vão embora realmente, como num rito de passagem necessário para encerrar seus trabalhos, fechar os ciclos e entregar o bastão.

A estrutura em três atos (o luto, a ação e a batalha) permite que os Russo mergulhem nos personagens para depois dar continuidade aos detalhes da trama. Assim, os heróis chegam ao campo de combate em dia com a emoção e com a história já amarrada, permitindo que o ato final se concentre no desfecho da “jornada do herói”. As coisas ficam mais fáceis ao reduzir o número de heróis, que era realmente um problema em Guerra Infinita.

Vingadores: UltimatoO novo filme acerta as contas com o Gavião Arqueiro, que não deu as caras no longa anterior e ganhou um arco completo e bem acertado dramaticamente. Faz o mesmo, em escala menor, com a Viúva Negra e o Hulk, e reserva as maiores homenagens para o Capitão América e o Homem de Ferro, os dois personagens centrais do grupo, reservando narrativas que refletem, cada uma a sua maneira, a “jornada do herói”, passando a limpo de maneira muito generosa a linha do tempo dos dois heróis.

O que se faz com Thor é um capítulo à parte porque a tática de trazer para o filme sua versão mais popular, a do humorista de Thor: Ragnarok, gera um conflito que deixa o Deus do Trovão como um objeto estranho, no pior dos sentidos, num filme que até então trabalhava a melancolia de forma tão equilibrada. O negócio fica mais grave na sequência em Asgard, em que um reencontro que poderia render muito em termos sentimentais, é engolido por um humor rasteiro que parecia melhor abrigado no filme solo do herói, formatado como uma comédia.

Por outro lado, o fan service, que inclui desde a aparição de personagens que não esperávamos mais ver até as conexões com eventos e filmes passados, tem um impacto surpreendente porque, mesmo que tenham a intenção de amarrar as pontas ou que já parecessem previamente anunciados em alguns casos, nunca parecem meramente gratuitos já que são inseridos e contextualizados na maior parte da vezes, surgindo mais organicamente dentro da história. Uma revisão do filme foi necessária para que, retirada a expectativa, ficasse claro como o mecanismo funciona com naturalidade.

Ultimato talvez não seja tão bom quanto filmes menores e com menos compromissos da Marvel, ou talvez não tenha o tom filosófico que dava o diferencial do longa anterior, mas é um encerramento dos mais dignos para um dos projetos mais ambiciosos dos últimos tempos, um desfecho que homenageia a história dos personagens dentro e fora das telas, que se nutre da relação entre eles e que elogia a memória e o sentimento de quem aprendeu com os compromissos do herói.

Vingadores: Ultimato estrelaestrelaestrela ½
Avengers: Endgame, Anthony & Joe Russo, 2019

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